Aos Obreiros da CDA no 56º Aniversário da sua fundação
 

Foi mais que um gesto a indicação do rumo,
Foi mais que um sonho o plano designado;
Quem quer ter passo firme, com aprumo,
Tem o caminho na Alma bem traçado.
 
Por que razão, por que destino estranho
A obra a tais alturas se guindou?
Há algo que diz bem o seu tamanho:
A fé, a grande fé que a gerou.
 
Por isso, todos, todos, sem temores,
De corpo e alma à luta se fizeram...
(Omito aqui os cegos e traidores
Que, sem saber onde iam, se perderam).
 
Quanta energia, quanta heroicidade
Para levar as hostes de vencida!...
Se a luta se decide p'la verdade,
A vida vale a pena ser vivida.
 
O anseio de triunfo foi esteio
Onde se ergueu, com júbilo, a bandeira;
Quem sabe aonde vai e porque veio
Conhece a linha certa da fronteira.
 
Por campos de batalha mais rasgados
O coração de entusiasmo bate...
 
Podes ter fé no brio dos soldados,
Ó capitão, das tropas em combate.
                            
                                   A. Monforte
 
Santo António, a tua festa
     È de cor e espalhafato:
     Hà nela mais alegria
     Que a do final do contrato.

          S.João, faz uma fonte
          P'ra ver as moças, no Dundo;
          Mais lindas não as encontras
          Em nenhum lugar do mundo.


              Ò S. Pedro, dá-me as chaves
              P´ra abrir as portas do céu;
              Bem merece o paraíso
              Quem nesta terra viveu.


          Olha o balão, como sobe,
          Sem prazer, nos céus além;
          Ganha ainda mais altura
          Que os preços no armazém.

              Menina, salta a fogueira...
              Tens medo?! Não sejas tonta;
              Da queimadura da saia
              Ninguém, agora, dá conta.

                 Santo António, S. João
                 E mais S. Pedro... Quem hà
                 Que nesta quadra, não folgue?!
                 - "Bailem, gentes!" - Èuá!...



   A. Monforte
Noites da Lunda
 
Noites da Lunda,
Em confusão de cores e de imagens,
Nos muros da Alma fria e abandonada
Há desenhos grotescos e miragens.
 
Noites da Lunda,
Nas catedrais do sonho, em oração,
Cada um pede ao deus da sua fé
Que deixe ver a própria dimensão.
 
Noites da Lunda,
esta ânsia de verdade é grande bem;
Quando o perfil ganhar contornos certos,
E que o olhar confia e se detém.
 
Noites da Lunda,
Que cada um p'ra seu resgate tenha,
Na pia baptismal da luz que irrompe,
A antevisão do bem que lhe convenha.
 
Noites da Lunda,
De estrelas tremebundas, na agonia,
Caindo subjugadas p'lo fascínio
Da aurora que, em certeza, principia.
 
Noites da Lunda,
E possa o Novo Dia, à alma humana
Enchê-la, para sempre, de ideais
De amor que, por ser claro, não engana.
 
                                            A. Monforte

 

Cassécuè
 
Cassécuè, canta baixinho,
Minh'alma sonha doçura...
Não indiques o caminho
Aos monstros que me perseguem...
(Cassécuè, canta baixinho!...)
 
Cassécuè, canta baixinho,
Minh'alma sonha doçura...
Ouço ruídos de passos
Que rasgam pistas de fome...
(E os favos são tão escassos!)
 
Cassécuè canta baixinho,
Minh'alma sonha doçura...
Quanto cobiça se atreve
A despertar azedumes...
(E eu tenho um sono tão leve!)
 
                                    A. Monforte
Nota:
    Cassécuè- ave que, em pipilar constante e saltitando de ramo em  ramo, indica ao caminhante a existência de favos de mel silvestre.