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AO RIO LUACHIMO TARDES TROPICAIS
Fecho os olhos e vejo aquela paisagem
Tão longínqua, de tardes amenas;
Meu Luachimo,ladeado de arvores serenas
Que saudade…havia magia na tua margem
Tardes inesquecíveis, tão quentes…
Sentidas como uma canção…
Eu cantei ao rio e seus afluentes
Como se fora uma oração…
Cantavam as aves como uma sinfonia,
Havia alegria,o dia ia desfalecendo
Por aquelas horas felizes, eu partia…
Tardes da minha mocidade…não esqueço
E, no seu remanso, o rio ia correndo,
Fecho os olhos em êxtase
permaneço…
ODETE SIMÕES
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AFRICA
A FESTA DA MUKANDA
Por caminhos da selva andei
Na ansiedade de me encontrar…
E sempre sonhando caminhei
Ávida daquilo que iria ver e julgar.
Acontecia a festa da " mukanda"
Abri caminho na Selva sangrenta
Seguindo minh'alma branda,
No meio daquele povo de mente lenta.
Era festa anual da circuncisão
Inspirados, dançavam com devoção
E, como proscritos, sem dó nem piedade
Eram atirados para o mato…os coitados
Um ano, da praxe, longe da sociedade,
Submetidos às intempéries e mal pernoitados…
ODETE SIMÕES |
ANGOLA
Saudade sim…e porque não?
Terra aonde ficou preso meu coração
Foram anos decorridos em boa harmonia
Amada, vivida como uma sinfonia.
Esquecer? mas como isso é vão!
Sua beleza ficou e nos conforta,
O resto é nada, ou talvez compaixão
Da tortura, que a tantos não importa
Quantas vezes tentei esquecer!
Para mais doidamente a recordar
E, com todo este meu querer,
Quem dera abrir asas, assim…
Mitigar esta saudade…Voltar!
Esta saudade eu sinto-a…ai de mim!
ODETE SIMÕES
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ALGUÉM
Eu sou aquela que deambula
Sou a que na vida perdeu o norte
Eu sou ainda a que espera a sorte
Que grita e sofre e gesticula.
Na rua passo ninguém me vê...
Chamam -me triste e não sou...
Choro na vida não sei porquê...
Talvez recordando o tempo que passou.
Sou aquela que muito quer
Sempre com a mesma doçura
Sou ainda a que se sente insegura
Nesta vida...de outro qualquer.
Vivo no meu castelo de sonho
Esperando sempre por alguém
O dia passa enfadonho
Espero, espero e... a horas vem!
As pedras gastei de caminhar
Dia e noite sempre a sonhar
Gastei-as esperando realizar
O que na vida é difícil encontrar
Triste claustro aonde moro
Nele rezo, rio e choro
É a alma de alguém
Que espera nada vem...de ninguém
ODETE SIMÕES
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VOANDO
Voar, quisera voar voando no espaço
e sentir meu corpo leve e lasso
Voar e sobrevoar, montanhas e mar
numa euforia de respirar lufadas de ar
Voar e romper nuvens de arminho
ouvindo supremas melodias p’lo caminho
Voar e sentir a leveza duma pena
que levo em minh’alma tão digna e serena
Voar e levar no espírito este desejo
de amar o mundo que me seria dado divisar
Voar, ouvir a confidência do Luar
e ganhar espaço, terra e Oceano
Voar, sentir na alma liberdade e abandono
que vejo fugir a cada momento
Voar, voar doce quimera que acalento
Que vejo voar,voando como o Vento!!!
ODETE
SIMÕES
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SAUDADE
Oh! Selva virgem!
Lânguida tristeza me invade
Quando me lembro de ti, com saudade!
E teu emaranhado por onde andei
Cercada por frondosas árvores e ramagem
Passo a passo abrindo caminho, caminhei
Vendo em ti uma magia amargurada
E, algo que te acompanhava, que me subjugava;
Beleza agreste, inóspita, apagada e triste…
Amenizada p’los verdes, a que um pintor não resiste,
Terra do silêncio, sem clareiras arenosas,
Sem o cantar das galinhas tão famosas
E nem sequer o Rei da Selva foi ouvido,
Com seu urro, que tanto havia querido…
Enredavam-me as plantas em laços
Oh! Selva de árvores mortas e astes ressequidas,
Em súplica, querendo abraçar o céu, erguidas!
Sinto ainda que me trazes acorrentada em teus braços
E que jamais se vão repetir meus fracassos…
Ah! Selva em liberdade eu te bendigo!
Existe entre mim e ela, um elo bem antigo.
Tanta beleza na sua tosca aparência…
Essa harmonia, tão natural no correr dos rios,
Ali seu canto dolente, era notável, essa ausência.
Selva de paisagem e amargurados sorrisos
E que eu amei em toda a sua dimensão,
Ainda recordo essa beleza agreste,com paixão,
Quem dera reviver o passado em festa!
Ah! Selva, como é bela tua Floresta!!! Odete
Simões 11.06.2002
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AQUELA
ROSA
Vi algures aquela rosa viçosa
A transbordar de vida e vigor
Distinguia-se das outras...
era mimosa
Sorrindo ansiosa prometendo
amor
Hoje, que o céu a fizera
assim graciosa,
Vejo-a já sem vida a
desfolhar
Doce quimera viveste, Rosa mimosa
E conformada cantas teu fim
sem chorar.
Meu grito de revolta se fez
ouvir
E ainda a vi, num esgar,
sorrir,
Lembra o que foi dantes,agora
angústiada
Suas pétalas espalhadas no chão,
Rosa desfolhada agonizante e
mal amada,
Que em tempos vi... sorrindo
em botão!...
ODETE SIMÕES
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A
MINHA DOR
Estranha forma de estar no mundo,
Gemendo condoida o meu mal…
Com a dor a picar-me bem, cá no fundo,
Sentindo-me como alguém irreal…
Sempre este desalento assim… e calei
Esta dor que sempre me acompanhou
Nesta estrada larga em que caminhei
E que, jámais, em tempos idos cantou!
Ergue-se esta cruz desalentada
Dentro de minh’alma amargurada
Quisera meu Deus! deixar esta agonia,
De caminhar na sombra e na fantasia,
Deixando este querer e não querer nada…
Oh!serei mesmo aquela desventurada?...
24.04.2004
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ANGOLA
MINHA...
Angola, minha Angola amada,
Com tuas buganvílias
em flor!
Foste menina muito requestada
Dom eu tive de te conhecer e ter amor.
Esperançados em melhores dias
Voámos até lá em Setembro;
Emocionados, de cabeças vazias,
Corações batendo forte, eu lembro
Com tuas noites quentes de luar
Ouviam-se tambores a rufar
E eróticas danças se
emaginavam até cansar
Ajudando-nos a adormecer
e a sonhar.
Grandes eram as tempestades e tornados
Que, ao passar nos deixava aliviados,
Batendo o sol na grande árvore frondosa,
Cenas frequentes em época chuvosa.
Terra de terras vermelhas
Rico seu solo furta-cores
Atacada qual enxame de abelhas
Puseram fim a tais horrores!
Conheci-te linda e airosa,
Limpa, com teus arranha-céus;
Conheci ainda tua ilha formosa,
Anos que viva não esqueço, meu Deus!
Hoje infeliz, longe e arrasada
Amanhã voltar a ver-te desejava.
No auge, te conheci, despreocupada,
Luanda triste, como eu te amava!
Que pensará quem não te conheceu antes?
Todos os predicados havia em ti
Ex-libres de Angola e habitantes,
Luanda desmenbrada assim te li.
Religiosamente te guardo no coração
Tal qual eras de grandiosidade
E acolhedora para com teu irmão
De mim resta apenas saudade.
Quero-te assim na memória
Com teus coqueiros a ladear a margem...
Ai pudesse eu dar-te –ia a vitória
Recordando-te depois como miragem
Terra arenosa e desbravada,
Densa eras e selva virgem,
P’lo homem foste ajudada,
Crescendo p’ró teu povo de origem
Lunda, ó Lunda lá no fim do mundo
Com teus di amantes
luzindo...
Com teus diamantes
luzindo...
Saudades deixaste meu Dundo
Cidade jardim, verde e florindo
Verdadeiro oásis no meio da selva
Querido e encantado eras tu Dundo!
De vivendas cercadas de relva
TINHAS MAGIA, FEITIÇO, FOSTE
MEU MUNDO
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PERDIDA…
Sofrida, caminha de fronte pendida…diziam
Sempre de olhar vago e em baixo…
Aqueles que tão bem me conheciam
Estranhavam meu olhar cabisbaixo
Fui, ao sofrimento, predestinada…
Fui como a ave perdida
e bem novinha,
Que vi a mocidade reduzída a nada;
Era meu destino e a sorte daí provinha.
Foram anos de espera silênciosa
Era uma íncognita, a minha vida!
Redobrei minha esperança tão calorosa
E, de cabeça oca
redopiando,
Havia momentos de me sentir perdida…
Cansada de esperar, dava comigo chorando!!!
14/11/2001
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AOS
MEUS FILHOS
Acreditai na mãe que vos deu à luz,
A cada passo e hora vos acompanhou
E que ainda em mente vos conduz,
Mãe que sofreu cantou e afagou.
Filhos que amei e o tempo ensinou
A perdoar,amar e esquecer;
Louvada a canção que vos embalou
E que vos ajudou a adormecer.
Senhor, imagino-Te amigo certo
E, se a vida não é uma ilusão,
Mostra-lhes o caminho correcto
Com
amor,guia-os p’la Tua Mão
Para
que me sinta feliz e liberta
Depois
voar Contigo de alma aberta…
ODETE SIMÕES
7.12.2002
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COMO
DOEM…
Sim, como doem as palavras…
Camufladas e cheias de ironia,
Vaidosas, indirectas no dia a dia
Risos de mentes mal formadas
Nada valem neste mundo de dor
Em que todos sofrem e amam
Quem sabe, hoje os que descoram
Um dia verão…
Como é belo o abrir d’uma flor…
Amar é um perfeito florir,
Mas, ai, a vida é um constante derruir
De castelos,
Que tombam em derrocadas
Envoltos em cinzas e terras amassadas.
Ao mundo eu deixo uma mensagem:
Que a vida é apenas uma passagem,
E quem se atreve ao desdém
Quando se é habitante dele…também?
Doem as palavras vâs … desdenhadas,
Mas, como doem sim…
Revoltas sombrias e repudiadas,
De quem lhes quere pôr
fim…
25/10/2001
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LIVRO DO NOSSO AMOR
São tantas e belas as páginas
Que o nosso livro tem
Há tanto de ti, nem imaginas,
Alegrias e mágoas ele contém.
Livro belo do nosso amor,
Outro assim não sei compor...
Desfolha-o com amor e devagar
Para que te possa continuar amar...
Murmura alguém... porquê triste?
Por recordar o tempo que passou?
No outono a folha cai, nada resiste,
E o inverno ainda agora começou!
Lê baixinho, tanto que te digo...
Lê sim... tudo que sonhei contigo
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PEDAÇOS DE UMA VIDA
Chaga que doeu e já não doi,
Sentimento que tive e já não sinto,
Amargura que doi e corrói
Dentro do meu peito ainda pressinto.
Gémia da minha alma é a noite
Transportada em sonhos, voando,
Sentimento que lembra a morte
Surpresa se sente acordando…
Há um grito na minh’alma em desamor;
Sentindo-se em constante desalento
E, nesse abandono, há o eco do lamento!
Cobri-me com meu manto de dor,
Colhi ainda e desfolhei p’lo caminho
As flores, leves e finas, como arminho!!!
Odete Simões
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