( Arranjo do Abel Teixeira Alves)

NA FALTA DO QUE FAZER...

 

Tava à toa aqui pensando,
Naquele mail desgramado,
Que de tanto botar graça,
Ninguém achou engraçado...
Muito menos tal amigo,
Sendo ele homenageado!

 

E logo bateu-me a ideia,
Pra descontraír um bocado,
Convidar esse amigão,
Ou qualquer interessado:
Quem aceita o desafio,
Dum cara bem-humorado?

 

O convite é prá peleja,
Em tema mais elevado,
Que na DIA alevantamos,
Como nunca alevantado;
E seja da musa o eleito,
De louros engalanado!

 

Qualquer brincadeira serve,
Mas há que honrar o rimado,
E não gostando do tema,
Pois fica a vosso cuidado.
Quem se presta a dar o mote,
Seja hilário ou desvelado?

 

Usaremos a sextilha,
Forma de belo bordado;
E na métrica, o heptassílabo,
Faremos ser respeitado.
a . b . c . b . a . a . b,
O arremate do rendado.

 

Fazer versos quando falo,
É falo que tou fadado,
Qual falóforo vassalo,
Sob um talo condenado.
Tou mal pago e falido,
Tou folido e mal pagado!

 

- Ó musas, ó divindades,
Acorrei este coitado!
De Virgílio a inspiração,
Dai-me pra cá um bocado!...
Que há de ser a liça dura,
Contra o Camões inspirado!

 

E se desta feita alguém,
Comigo ficar zangado...
Ah! vai reclamar à Zélinha,
Que eu não sou nada culpado.
Meu pecado foi atender,
Com prazer o seu chamado.

 

Agora hei dar a partida,
Que já tou meio cansado,
De tanto rimar palavras,
Em tôsco palavreado.
Haja tempo e paciência
A quem for do mal tomado.

 

a . b . c . b . a . a . b

 

Abel:
Vamos, vamos, gente fina,
Ora vamos cultivar,
Aquela velha amizade,
Que o peito faz palpitar;
Neste lupango se ensina,
Que deveras é menina,
A vida até se apagar.

 

Zelinha:
Minha Nossa! caro Abel,
Gostaria de continuar
mas lingua Lusa
há muito deixei de estudar
que outro pegue o "cordel"
E que relembre com "mel"
O nosso desabrochar

 

Abel:
Não estuda e nem precisa,
Esta nossa lingua lusa,
Quem ao verso sabe impôr,
Rima clara e não confusa.
És dos mestres a Papisa,
E do Olimpo a Pitonisa...
- És poeta e a própria Musa!

 

Vitó:
Não posso pegar-te na rima
Que a lida já vai atrasada
Ainda levo por cima
Da minha patroa kamatapa
 
Temos que sair p'ràs compras
Diz ela com voz imperiosa
E eu obedeço sem mais
Não resisto, é tão formosa!!

 

Luis:
Ó Abel, mas que diabo!
Vem Sua Senhoria desafiar,
Num Domingo de descanso,
A malta para tagarelar;
Dia Santo, kaxico com a musa,
Fico até mesmo sem t...
E a métrica? Nem pensar!

 

Abel:
Luis!, folgam também as musas,
No santo dia do Senhor?
Ou dos varões rotas escusas,
Ouvirás em seu desfavor?

 

Pois dentre todos os varões,
Só tua e minha poesia,
Penetrou fundo os corações,
De quem nos lê aqui na DIA.

 

E do Vitó sendo primeiro,
Até co'a patroa no pé,
Pró santo labor domingueiro,
Brotou a inspiração, ó Zé!

 

Né:
Se recordar é viver
Viver será recordar
Então, se é, amigos
Vamos lá o Abel ajudar


Pois quem escreve e sente assim
Tem um bom coração, afinal.

Corações geniais
Infâncias de invejar


De que estão vocês à espera
Para o mote lhe dar?

Revivam os tempos passados
quimeras e namoradas
avivem essas memórias
e não darão calinadas...

 

Abel:
Né, se a senhora tua mãe,
Da poesia, intimidade...
E ao gosto do teu dedo,
Impões tal habilidade...

 

Deixa-me amiga cantar,
Que de peixe bem és filha,
Pois mostra saber "nadar",
Quem no verbo tanto brilha!

 

Bibica:
Cheguei aqui alvoroçada..
e quedei-me a ler poesia
Sim senhor gente abençoada
Vamos lá a esta folia!

 

Versejar e Rimar
Nao sou capáz de o fazer
mas..recordar
faço sim com prazer!

 

Gente assim é bonita!
Bonita de alma e coraçao,
Siga a fita...
Vamos lá entao!

 

Abel:
Bonito é o sentimento
Que dos versos da Bibica
Transborda qual unguento,
Que me unge a alma e mirifica.
 
Abel:
Ora, ora, Maria Karage,
Não te travistas d'esperteza...
Que a arte de Camões e Bocage,
D'alma brota qual chama acesa!

 

Mas precisas participar,
Honrar a nobre lingua mater,
Que verve tens no versejar,
Em sobejo de Nostrum Pater!

 

Mostra-nos d'africanas plagas,
Duma rainha a inspiração...
Que teus versos serão as chagas,
Que me sangram o coração!

 

Maria Karage:
Acorda apressada...
Com olhar guloso apalpa um corpo reluzente
Corpo de menina desperta para a vida
Vestindo amor.

 

Mwana phwo
Acorda apressada e apressada enrola khata
Atira swaha à cabeça e corre com os seios ao vento
E de olhos fechados a saborear
o sol da manhã no Kamitelembe

 

Vai desfraldando amor
A ngikita na cintura a tremular
Revestida de amor
Vai falando e sorindo amor
Com os olhjos lânguidos de amor

 

Assim vai ela saltitando descalça
Brasas nos pés
Estremecendo as ancas
Vai cantarolando a puberdade
Desliza os pés na folhagem...
Segura no capim e mergulha o corpo nú
para as delícias do kaluiji ka ilumbo
saciar...

 

Sónia:
Por mais que eu queira,
não vou conseguir nunca.
pensei a noite inteira,
como competir com estes lunga.

 

Abel:
Competir já conseguiste,
E mais hás de conseguir,
Se deitares a mão à pena,
Sem pena de te aborrir.

 

Ora aqui dou por encerrado,
Este rasgo de inspiração,
Que é solitário o versejado,
É bruta a pena e ruda a mão!

 

E adoçar hei noutro lupango,
Minh'alma triste e descontente,
Pois tal silêncio de candango,
- o laurear que cinge a gente -,
É pura pecha de sarango.

 

"Amor omnia vinciti"

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A Baluba do rancho dos Lundas
 
Baluba
Recorda a quente sanzala,
Airosa
Meneia o teu busto negrinho,
Revira teus olhos
Agita teus braços
Folheia teus folhos,
Folheia
Folheia
Teu livro de encantos…
Requebra teus flancos
Requebra
Requebra
Na dança
Teus passos.
 
Baluba bonita
Teus gestos espalham
Luzernas de sol,
Pétalas de luz
Que abres em teus dedos.
E um rosário branco
De meigos suspiros
Teus dentes desfiam
Em doidos segredos.
 
Sombras de mukiche
Como pesadelos
Rondam teu pescoço
-Colares
E contas
Que soltas
Rodando-
E em teu corpo esquivo
Parece que chora
Um canto lascivo
No lume que ateias
Com teu sangue moço!
 
E o ventre,
Na dança,
Que moves
Que agitas
Que elevas
E desces
Num crescente louco,
 É um morro altivo
Que o espaço convida
Numa curva doce
Que traças sonhando
Nesse gesto leve
Que te prende à vida.
 
                            Nita Lupi
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Notas da autora:
 
 Baluba-
 Mulher negra oriunda da Lunda. Nos tempos do vice-reinado os Balubas de Angola constituíam um dos melhores elementos de Carnaval do Brasil e ainda hoje os grupos que se mantêm fiéis às suas características exibem-se nos mais modernos cabarets brasileiros em fantásticas danças.
 
Di kembe-
Instrumento gentílico que tocam os negros de Cabinda.
 
Mukiche-
 Feiticeiro que traz a cara pintada com estranhos desenhos