In: Crenças , Adivinhação e Medicina Tradicionais dos
Tutchokwe
do Nordeste de Angola
Autor: João Vicente Martins;
Edição do Inst. de Inv. Ciêntifica Tropical - Lisboa 1993 - CDU
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As alianças pelo sangue, tão vulgares em diversas etnias
africanas, entre os povos da Lunda apenas são praticadas pelo marido e mulher, para que o
seu amor seja eterno e a morte os mate a ambos no mesmo dia.
Esta aliança é praticada da seguinte forma: cada um dos cônjuges
faz um pequeno tchato (golpe) no antebraço direito e deita algumas gotas do seu
sangue sobre uma vasilha onde, previamente, já foi posto um pó obtido de um bocadinho da
raiz de mukula, raiz esta que deve atravessar um caminho; compete ao marido
procurá-la e cortá-la, à mulher queimá-la e reduzi-Ia a pó, que é amassado com o
sangue de ambos.. Obtido este remédio mágico de amor eterno, o homem faz um pequeno
golpe no ventre da mulher, entre o umbigo e as partes pudendas, e esfrega, sobre o sangue
que dele brota, um bocadinho da dita pasta mágica, com o dedo médio da mão direita.
Logo que o marido termine esta operação, a mulher procede de igual forma com o seu
amado. Feito isto, cada qual, com o mesmo dedo, tira outro bocadinho do referido remédio,
põe-no sobre a língua e engole-o, declarando, solenemente, que jamais coisa alguma
poderá perturbar o seu grande e mútuo amor. Nem mesmo a morte ou depois desta, porque
ambos deverão morrer no mesmo dia, pois jamais um poderá continuar a viver sem o seu mwikwa
(espírito) que agora é uno.
Embora sejam raras estas alianças de «amor eterno», pelo sangue,
foram-nos contados alguns casos em que, mulher e marido morreram no mesmo dia, com
intervalo de poucas horas. É o que se chama morrer de amor.