In: Crenças , Adivinhação e Medicina Tradicionais dos
Tutchokwe
do Nordeste de Angola
Autor: João Vicente Martins;
Edição do Inst. de Inv. Ciêntifica Tropical - Lisboa 1993 - CDU
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Quando um homem deseja possuir uma mulher de quem
gosta e ela não corresponde ao seu amor, este, entre outras coisas, faz um remédio
mágico que mete num vaso feito de uma pequena cabaça.
0 remédio é feito da seguinte forma: o amoroso
arranja três penas, uma encarnada, do rabo de um papagaio, outra branca, do rabo de uma
carraceira nange (Bubuldis ibis), e outra preta, do rabo de sehelela
(Prionops poliocephala), pequeno pássaro cuja plumagem e preta e branca. Arranjadas as
três penas, mete-as no referido vaso e vai procurar algumas folhas de mukefe, e um
pequenino ouriço de imbualatata. Obtidas estas coisas, seca-as e tritura-as.
Depois de amassar este pó com óleo de rícino e mukundu, põe a pequenina bola
que fez, dentro do vaso, sobre as três penas já lá metidas, colocando depois o
recipiente sobre a porta e junto ao tecto da sua casa.
Feito isto, todos os dias, ao levantar-se da cama
besunta o dedo médio da mão direita com aquele remédio mágico e esfrega-o na
extremidade do esterno para que o seu coração chame a si o da mulher de quem gosta. Em
seguida, esfrega com ele as mãos e a cara para que os seus olhos atraiam e as suas mãos
agarrem aquela mulher por quem se sente apaixonado.
No próprio dia em que fez o remédio, da primeira
coisa que lhe oferecerem, geralmente comida, coloca um bocadinho no meio daquela droga
milagrosa para o que a trespassa com um pauzito afiado. Este acto tem o poder de, quando
ele der alguma coisa à sua amada, esta a receba e lhe toque o coração. Se o facto de se
esfregar todos os dias, com o remédio mágico, não for suficiente para atrair para si
aquela de quem gosta, então procurará assar um bocado de carne que besuntará muito
levemente com a droga que manipulou.
Depois oferecê-la-á à mulher naquele mesmo dia.
Se assim proceder e ela comer tal isca, ficará para sempre no anzol; entregar-se -lhe -à
imediatamente, seja solteira ou casada.
Se ela não comer a carne, nem lhe tocar com as
mãos, procurará oferecer-lhe a droga metida em tabaco ou em qualquer outra coisa, visto
que, este mágico remédio, desde que uma mulher o tome ou lhe toque o corpo,
imediatamente sentirá uma atracção tal por quem lho deu, que jamais será senhora de
si, se não se entregar ao seu sedutor.
0 que se dá com o homem pode também suceder com a
mulher, desde que goste de determinado homem e este não mostre grande interesse por ela.
Entre outras magias, a mulher preparará a seguinte droga que julga ser também
infalível:
Arranja uma pena de sehelela e um bocado de
tecido do fato de um mukiche (mascarado), a que junta um pedaço do pano, que ela
tenha usado para tapar as partes pudendas, durante a última menstruação, bem
ensanguentado. Queima tudo junto, metendo, em seguida, a cinza obtida numa vasilha com
óleo de palma, que a absorve imediatamente. Depois apanha um kajinga-meia (pequeno
insecto que anda sempre sobre a água), mata-o e coloca-o no meio daquela droga.
Obtido tal óleo mágico, procede da mesma forma que
o homem, procurando que ele o absorva na comida ou lhe toque o corpo.