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A FESTA GRANDE DA GRANDE FESTA(Extracto do diário de Eduardo Luna de Carvalho, Setembro de 1955)
Foi com a chegada dos carros com o pessoal das minas que começou a grande festa. Uma homenagem da Diamang ao seu pessoal indígena (fig. I) . Depois do mata-bicho, assisti ao hastear da bandeira onde se fez a concentração dos caçadores indígenas, batendo palmas, cantando hinos sobre a Senhora de Fátima, ave-marias, etc. Os "senteros"(1) chegaram com a banda de música à frente e os miúdos da ginástica(2) atrás, todos empunhando bandeiras da Fundação, Monarquia, Legião e Mocidade. Quando a bandeira portuguesa chegou ao topo do mastro (fig. II), ouviram-se uns tiros sem conjunto e depois houve grosso tiroteio na manifestação ao Sucena(3), Lemos Peixoto(4), americana(5) e outros "fumos"(6). É claro que com a presença do Lemos Peixoto quase não faltou nenhum branco, nem a esta cerimónia, nem à missa que foi logo a seguir. Depois foi tudo para a porta do Museu, esperar os sobas indígenas na tradicional visita. O Almeida Santos(7) contudo, achou por bem fazer a distribuição da carne logo a seguir à missa, o que deixou "desesperados" e à espera, o Sucena, Lemos Peixoto e outras altas individualidades. Finalmente fez-se a visita (fig. III). Instalei-me na sala da fauna, observando as expressões dos indígenas ao verem os troféus de caça. Só um ou dois identificaram os cornos de rinoceronte, o "Kefukefu"; quase todos chamavam "Jamba" (elefante) ao crânio de "Guvo" (hipopótamo) e os mais "calcinhas"(8) deturpavam todos os nomes. Às 17 Horas, assisti à entrega das medalhas (fig. IV), o recinto estava repleto por obra e graça do Comandante Peixoto, quase lá estiveram todos os empregados, acabou já noite chegada, grande percentagem dos medalhados são da S.I.D.(9) ou sentinelas. O Domingos Samukalenga(10) apresentou-se com um smoking, comprado a um "fumo". O seu patrão quando soube o preço que ele pagou pela fatiota conseguiu que o vendedor lhe devolvesse essa "falanga"(11)! As mulheres punham os seus tecidos como capas de estudantes (no chão) para que o seu "Lunga"(12), em cima dele recebesse com mais cerimonial a "mindalha"! Seguiu-se o batuque (a festa grande) (fig.V)) que não teve a graça e a espontaneidade dos dois outros anos a que eu assisti. Parece que de ano para ano vai caindo! No final apresentou-se fogo de artifício com animais que redundou num autêntico fracasso! Acabou a festa com distribuição de vinho e carne de alguns bois assados no espeto (fig. VI). Nessa distribuição houve pancadaria(13) entre pretos e a S.P.A.M.O.I.(14)
(1) equivalente a sentinelas, guarda fardada da S.I.D.E. e Concessão. -- regressar ao texto(2) miúdos indígenas, com a farda da mocidade portuguesa -- regressar ao texto (3) Director Geral. -- regressar ao texto (4) Idoso Comandante da Marinha que chefiava a Secção destinada a Secção destinada aos contratos do pessoal branco em Lisboa. -- regressar ao texto (5) Talvez accionista da Companhia, em visita. -- regressar ao texto (6) Nome que se dava a pessoal superior europeu (de encarregado a director) -- regressar ao texto (7) Chefe da Concessão do Dundo. -- regressar ao texto (8) Pessoal nativo mais aculturado, distinguindo-se, acima de tudo, por usarem óculos. -- regressar ao texto (9) Secção de Informações e Diligências. Espécie de polícia que também vigiava o eventual contrabando de diamantes -- regressar ao texto (10) Criado do Dr. António de Barros Machado. -- regressar ao texto (11) Dinheiro. -- regressar ao texto (12) Homem. -- regressar ao texto (13) Provavelmente devido a diferenças na distribuição da carne e vinho. -- regressar ao texto (14) Secção de Propaganda à mão de obra indígena. Que vigiava as culturas agrícolas das mulheres indígenas que seriam depois compradas pela companhia. -- regressar ao texto |