Canto das Aves

DIAMANG Pág. Superior Canto das Aves Lagarto-veloz Desmaios do hyrax Cinocéfalos Mutambieka

 

 

Alguns Animais no Folclore Quioco

 

1. 0 CANTO DAS AVES E SUA INTERPRETAÇÁO ONOMATOPAICA

É sabido que o cantar de algumas aves tem inspirado frases e palavras, como que uma tradução fonética, em alguns povos.

Recordamo-nos que em Portugal, por exemplo, a rôla (Turtur sp.) canta «pôe-te na rua! pôe-te na rua!», a exótica galinha-do-mato (Numida sp.) apregoa «Estou fraca, estou fraca ... » e ao cuco (Cuculus canon¿s L.) as donzelas da Beira Alta perguntam-lhe «cuco da ramalheira, quantos anos ainda estou solteira?» E o número ou vezes que ele repete «cu-cu» equivalerá ao número de anos que ainda terão de celibato.

Os brasileiros chamam a uma ave «bem-te-vi» onamatopizando o seu cantar, na América do Norte algumas aves têm o seu nome vernáculo relacionado com o piar ou canto: assim o Charadrius vociferus L. é o «kill-deer» e o Colinus vitinianus (L.) o «bob white».

Nos «Tshokwe» (ou Quiocos) os nomes de certas aves derivam do seu cantar como o «mukuku» para os Centropus e géneros afins e o «kamboa» para a rôla. Eis alguns exemplos de interpretação quioca do cantar de algumas aves, colhidos em Angola, Dundo, há já alguns anos:

  1. «Liembe» [Streptoptelia semitorquata (RUPPELL)]

«Ku-Ku. Tshikutu-tshé. Ku-Ku. Tshikutu-tshé». Trata-se dum canto que diz: «o teu falo grande!»

    2. «Kambowa» [(Turtur afer kilimensis) (MEARNS)]

A) «Kambowa, kambowa, munubwye myimana. Tshitundu halusaka. lfu myimbia. Kambowa é-ééé .... ». «Minha mãe dá-me pirão no cesto e carne na panela».

B) «Liembe-liembe makwyé namutwala ha meme munyenyu bwí-bwí-bwí ... ». «Oh Liembe, fui tomar banho com tua mãe e vi-lhe o traseiro! Era escuro! escuro!» ...

    3. «Tshitshioliu» [Mynnecocichla nigra (VIEILLOT)]

«Tshitshiotiu-Kumília-myanda. Tulá uhimime! Tulá ... tulá ... tulá uhimime!»: «Larga a carga! Larga a carga! Larga a carga e descansa!»

Esta ave segue as caravanas de carregadores aconselhando-os a descansar, o que eles fazem sempre quando encontram estas aves nos caminhos ou picadas que percorrem.

    4. «Kasekwe» [Indicator indicator (SPARRMAN)1 (Fig. 2)

«Talá ... talá ... talá ... talátalátalátalá; Tsheka ... tsheka ... tsheka! Talátalátalá ... talátalátalá ... !»

0 Kasekwe «ave indicadora do mel» costuma esvoaçar em redor dos homens ou do ratel (Mellivora capensis) guiando-os para o buraco

da árvore onde se aloja uma colmeia de abelhas. Depois da colheita do mel, por sua indicação, o pássaro-do-mel come as larvas e ninfas das abelhas e até a própria cera (J. F. Rosario Nunes & G. C. Carvalho Tordo, 1960, pp. 95-96).

Os quiocos afirmam que estas aves por vezes, com o mesmo cantar levam o incauto até ao refúgio de feras ou de alguma gibóia. Assim o quioco mais prudente receia seguir o cantar e esvoaçar da ave certificando-se cautelosamente se náo está a ser enganado por ela.

5.<<Tshilumbo> [Tchagra sp. (senegala rufofusca (NEUMANN) e au-stralis souzae (BOCAGE)

«Kamwé ... kamwé ... andando kamwé ... mutshikukwa ... kamwé ... kamwé andando kwé ... mutshikuhwa ... » «Tira um, não acaba ... tira um, não acaba ... ».

Quando um quioco mata uma destas aves, aparece logo outra a cantar «Mataste.uma mas náo acabamos de aparecer!» Os outros pássaros náo gostam do «tshilumbo» pois este não os avisa da aproximação do caçador, pelo contrário, dizem-lhe que se forem mortos outros aparecerão!

 

6.«Tshikungulu» [(Bubo bubo africanus (TEMMINCK)]

«Hum, hum, hum .... hum, hum, hum ... » Imita o gemer ou choro de uma criança, sendo de mau agoiro ouvi-lo, pois quando o mocho «Chora» nas sanzalas anuncia a morte de alguém na aldeia. Em Portugal também se considera azarento e ... ainda por cima o companheiro preferido de bruxas!

7.«Katóio» [Clamator sp.: levaillantii (SWAINSON), glandaius choragium CLANCEY, Jacobinus pica (HEMPRICH & EHNRENBURG)1

«Kaió ... kaió ... kaió ... tótótótó ... » Também imita o choro de uma pessoa sendo, ouvido nas sanzalas, um prenúncio de morte de um dos seus habitantes.