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OS MACACOS CINOCÉFALOS NO FOLCLORE DO NORDESTE DA LUNDA (Papio kindae LONNBERG, Fig. 5)«Na aldeia do soba quioco Kandemba havia um recinto de circuncisão. A certa altura os guardas, que se tinham ausentado por algum tempo, deram por falta de todos os circuncidados, a quem tinham proibido de comer certos frutos, prescrição a que eles desobedeceram. Procuravam-nos na floresta das imediações e encontraram-nos em cima das árvores transformados em cinocéfalos. Estes ao verem-se descobertos fugiram gritando: «mahundo twatshima ikele!».Esta historia que nos foi contada pelo Sanjinje e confirmada por outros indígenas, está na origem de considerarem hoje que os «mahundo» são «tundanji» transformados por feitiçaria em macacos. Apontam como prova terem os papios um falo semelhante ao humano depois de circuncidado. Como resultado desta lenda, não é permitido no período de clausura post-circuncisão, os «tundanji» subirem ás árvores (para não se transformarem em «mahundo») e tradicionalmente o quioco não come carne de cinocéfalos «por terem sido circuncidados que se transformaram em macacos, regra que, com a actual escassez de carne na sua alimentação não é totalmente cumprida. 0 canto dos «tundanji» tornados macacos («mahundo twatshima ikele») é de difícil interpretação e literalmente significa «Nós cinocéfalos fingimos bordões de palmeira», mas parece ter um mais amplo significado: «os nossos filhos são agora uma coisa do mato, como bordões de palmeira, deixaram de ser pessoas», ou então: «Nós macacos fugimos pois somos inúteis como o que não é aproveitado da palmeira bordão». Uma velha andrajosa e sarnenta apareceu pedindo abrigo na sanzala do Sá-Kalundo. Foi corrida de todas as cubatas até que foi recolhida por alguém que a tratou bem curando-a da sarna. Reconhecida avisou os seus caridosos hospedeiros que fugissem essa noite da aldeia para longe pois iria castigar quem a escorraçou. Assim fizeram e a velha fez com que uma grande chuva submergisse completamente a sanzala (ainda hoje se podem ver no lago os paus com forquilhas das cubatas saindo da água, diz-se) e matasse toda a gente. Apenas escaparam alguns rapazes que se encontravam na «mukanda» (recinto da circuncisão) dos arredores, que indo buscar lenha á floresta tiveram que se refugiar em árvores, quando da inundação, ... ficando transformados em «mahundo». Barros Machado (1969, pp. 163-165) dá outra versão semelhante mas como tendo sido passada na aLdeia do soba xinge Safwanandemba e a canção gritada pelos <<tundanji>> transformados em cinocéfalos, era <<mahundo wb twapwfle atu, twalumuka ikewele>>. <<Nós babuínos, éramos pessoas, transformámo-nos em aparas de palmeira bordão>>. M. L. Rodrigues de Areia (1985, pp. 297-298) volta a debater esta lenda com a frase citada por Barros Machado e <<hundo we washina ikololo>>, está traduzida por <<Nós babuínos, fugimos dos guardas>>. J. F. Peirone (1967, pp. 56-57) apresentou este caso como uma versão intermediária do <<pecado original>> bíblico e as lendas indígenas. A criação do mundo, segundo os Ajouas de Moçambique, foi feita por <<Ntanga>> que, depois de criar os céus e a terra , com a sua verdura, montanhas e planícies, criou os animais. Em seguida pensou <<como seria bonito colocar sobre a terra uma criatura que me conhecesse e voasse da terra para o céu e do céu à terra>>. Assim apareceram homens alados <<Maturnburi>>(') a quem Deus avisou não deverem comer sendo alguns frutos indicados por Ele. Um dia quizeram experimenter frutos proíbidos: as asas caíram, nasceu-lhes rabo, uma pequena penugem escura cobriu-lhes todo corpo e transformaram-se em macacos! Estes animais não foram criados pelo <<Ntanga>> foram os filhos dos homens que se transformaram neles! Lembramo-nos ter lido num velho catecismo, de fins do século passado, a opinião de um dos santos intérpretes da Bíblia, que apoiava terem os símios sido criados por Deus para o homem, que ao vê-los e como sua caricatura desfigurada e brusca, pensasse o que lhe aconteceria se voltasse as costas `a religião! A humanidade não se conforma nem perdoa, haver um animal <<feito>> à sua semelhança! Animal que Lineu colocou na nossa ordem e Darwin na nossa ascendência! (*) Existe em quioco o vocábulo (<Mutumbula>> (será derivado de <(Matumburi>> ?) que significa uma personagem que afronta pessoas tratando-as de modo que façam tudo o que seu dono quer (como se fosse um cão) sem ter vontade própria. Tratar-se-á dos antigos caçadores e traficantes de escravos ?
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