Crónicas Várias

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Crónicas Várias

por Dora Barros Machado

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Os Sapatos do Muafulungo

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Um Chá na K18

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Os sapatos do Muafulungo, Dundo 1948

O Muafulungo vem fazer queixa do Adolfo e conta o seguinte: "Eu tinha uns sapatos para arranjar, o Adolfo viu os sapatos e disse que conhecia um sapateiro que sabe concertá-los. levou os sapatos. Agora disse que o irmão do sapateiro foi para o Congo e levou os meus sapatos, e não quer pagar os
sapatos." (creio que ainda havia mais algumas complicações que já não me lembro muito bem).

Depois dum momento de silêncio, o Muafulungo ainda acrescenta: "Mas os sapatos não eram meus, eram dum amigo e eu já paguei ao amigo 110 angolares pelos sapatos!"

Depois de muitas discussões com o Adolfo, que acha não ter nada a ver com os sapatos, o Muafulungo resolve fazer queixa junto das autoridades e pede uma mukanda. Volta da primeira instância, onde lhe deram uma carta para o Administrador, e está resolvido a levar a questão por diante. aparece outra
vez o Adolfo, e em vista de ter que ir o julgamento promete pagar o que o Muafulungo pede, logo que receba o ordenado no principio do mês seguinte.

Fica combinado que só em caso de ele não cumprir a promessa o Muafulungo fará queixa junto do Administrador. Chega a altura do pagamento e acontece que o Adolfo tem que pagar o imposto nesse mês, (o que pretende não ter sabido) de maneira que não tem dinheiro para pagar. Diz que vai arranjar
dinheiro mas, no dia seguinte, aparece com uns sapatos na mão, contente, por enfim o sapateiro (cujo irmão tinha fugido com os sapatos?) lhe ter devolvido os sapatos! Julga-se tudo resolvido, mas o Muafulungo diz que os sapatos eram pretos e agora são castanhos! Portanto, não são os tais sapatos. De resto são uns sapatos que já nem merecem esse nome, falta-lhes grande parte da sola, e são por todos os lados muito arejados. Acabou-se a paciência do Muafulungo, que pega na carta para o Administrador, resolvidissimo a conseguir justiça. Não volta para o trabalho naquele dia, nem ele nem o Adolfo. Estarão eles mais o sapateiro no hospital, como resultado das conversas vivas que têm tido ou estarão todos presos? Consta que o sapateiro (?) pagou algo ao Muafulungo.

No dia seguinte aparece o Muafulungo triunfante : o Adolfo pagou! O pai do Muafulungo (que não deve
ser pai) arranjou dinheiro, mas como eram só 70 angolares o Muafulungo ficou ainda por cima com os sapatos! De quem serão estes sapatos, e o que será do Muafulungo se aparecer um outro "autêntico" proprietário dos sapatos!!!!"

 

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Um Chá na K18, Dundo 1960

Prefácio da Isabel Reis: Crónica Escrita a 01.09.1960 (eu tinha 7 meses gloriosos!!!) , ainda me lembro de algumas "estórias" deste período da Diamang ( a chegada dos refugiados belgas, a camarata que foi feita na Casa do Pessoal, a comida feita por cada um e levada para a Casa do Pessoal, a distribuição de armas aos empregados e os treinos de tiro quer para os empregados quer para as Senhoras; a minha avó dizer que nas noites de cinema -os kotas Reis iam para o cinema e a avó Mila ficava com a mona, o muata Carvalho estava na segurança - ficava à beira do meu berço com a arma no regaço; tanto quanto sei foi também por esta altura que kota Reis decidiu enviar para o Puto tudo o que era pertença particular e de facto não me lembro de a casa dos meus pais ter muito mais atavios do que os que eram distribuídos por todos os empregados; só em 74 vim a ver os caixotes e pertences que desde 60/61 estavam a recato no Puto. mas chega de prosa da Mona e aqui vai:

Convidadas umas 10 damas. 1º sentadas todas numa roda grande na varanda, com conversas aos grupinhos. A Generala a presidir. Fiquei longe dela, pois vim tarde. Fomos todas para a mesa, que estava cheia de bolos, bolinhos, sandes, etc...., tudo muito bom. Tomou-se chá, comeu-se, depois foi-se para a varanda. Fizeram-se duas mesas com jogadoras de canasta e uma mesa de homens (houve alguns convidados também, para o General também poder jogar), e eu com mais 4 senhoras não jogadoras sentámo-nos à parte na varanda, para conversar.

Depois de se ter falado de engordar ou não engordar, dietas, dos refugiados belgas, que estiveram nas casas de algumas Senhoras, tocou-se no assunto "Congo". Alguém tinha ouvido hoje na rádio que o Lumumba estava muito manso e murcho e tinha concordado com os seus inimigos. Achou-se que isso certamente era fita, pois não se podia esperar coisa boa desse malandro. Das guerras tribais acharam todas que estavam muito bem, que quanto mais se matassem uns aos outros, melhor seria. Eu disse que tinha muita pena deles, e que a culpa não era deles, mas dos belgas que os não tinham preparado. Que não, e embora isso seja egoísta, achou uma senhora, que se matem uns aos outros, mas que deixem os brancos em paz. Que são uns primitivos, incultos, selvagens, etc. Eu lembrei que nas guerras dos brancos também se andavam a matar uns aos outros, e que os motivos eram semelhantes - cada um quer mandar, ampliar o seu território, etc.