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Aventura e RotinaGilberto Freyre
(alguns extractos sobre a Diamang)
Prefácio de Isabel ReisEste reencontro acaba por entusiasmar não só os que directamente viveram aqueles anos mas também os que connosco partilham os anos presentes. Nessa partilha, o Alexandre ( também ele um apaixonado por aquela terra e com recordações dos tempos em que acompanhou o pai, o escritor e jornalista Ferreira da Costa, tendo, nesse tempo, chegado a visitar a Diamang e não só, correu aquela terra de ponta a ponta e ainda hoje a descreve de forma única) chamou-me a atenção para um livro que tenho e que data de 1952 intitulado "Aventura e Rotina Sugestões de uma viagem à procura das constantes portuguesas de carácter e acção" e escrito por Gilberto Freyre, sociólogo brasileiro que foi convidado a realizar uma visita aos "vastos territórios de Portugal Ultramarino"; O seu objectivo foi ver e procurar compreender o fenómeno social e segundo nota de apresentação de contra capa " raras vezes se encontrará num livro maior isenção e independência. Serena observação, crítica construtiva, sugestão ( ) e no Prefácio "As notas de viagem que recolhi quase taquigráficamente tomam aqui forma menos impressionista que expressionista. Chegam algumas a ser reacção crítica e não apenas lírica ao que observei."( ) A edição é dos Livros do Brasil Ldª - Colecção Livros do Brasil nº 24 Não vou resistir e vou tentar transcrever algumas das partes constantes do capítulo em que ele é recebido na Diamang isto lá pelo ano de 1951; o livro inicia-se em Agosto de 1951 e quando chega à Diamang corre o mês de Dezembro de 1951 Inicia-se no Capítulo 22 in Dezembro 51 e termina no Capítulo 30 in Dezembro 51
ExtractosRetardados os carros da Companhia de Diamantes que deviam de esperar-nos em Vila Luso, partimos para o Dundo em carros da Província do Bié, ( ). Viagem longa, por terras de paisagem diversa. ( ) Almoçámos, na Casa da Companhia de Diamantes. Aí nos regalámos de civilização: banho de chuveiro igual ao de vapor inglês, gelo, bom vinho, boa galinha. ( .) . Já à noite chagamos ao Dundo. A noite aqui é como no Norte do Brasil: vem de repente. A sede da Companhia de Diamantes no Dundo recebe-nos com luzes que parecem noite de festa;( ) É sempre noite de festa no Dundo ( .) . As suas luzes iluminam sofisticados jardins ( ). No ar, no ambiente, no próprio clima, alguma coisa de inconfundivelmente antitropical que dominasse a natureza, esmagando-lhe a espontaneidade, sujeitando-a a alguma coisa de puritano e até de politicamente higiénico, aproveitando dela só o pitoresco da superfície.( ) Vida de indivíduos que, para não se deixarem contaminar por ambientes tropicais, vivessem como doentes ricos em hospitais ou casas de saúde. Vida artificial. É o que mais sinto ao chegar ao Dundo, sob a iluminação festiva e, ao mesmo tempo, clínica e policial, com que a sede da Companhia de Diamantes nos recebe. ( .) Sente-se que nenhum estranho, nenhum empregado da Companhia, nenhum branco, nenhum preto, é aqui um homem à vontade mas um indivíduo vigiado, espiado, subtilmente fiscalizado por secretas.( ) Somos hospedados de modo principesco. ( ) Jantar servido dentro do melhor ritual europeu ( ). Preside ao jantar a Senhora Suceno de Sousa. É uma dama portuguesa que não se afrancesou de modo a perder a graça lusitana. Que, tendo cursado Coimbra e estudado aí antropologia, não se artificializou em bacharela. ( ) Completa admiravelmente o marido, o engenheiro Rolando Suceno. Adoça o que nele parece extremar-se em sisudez autoritária. ( .) . Não é difícil verificar-se, mesmo em rápido contacto com o Dundo bela, não adormecida mas escondida num bosque que a vida aqui vivida é regulada nas menores coisas. Que aqui todo o branco, todo o preto, toda a criatura humana, é um ser que se move, que se alimenta, que se diverte, que trabalha, que estuda, que sonha, que reza, que vai à igreja antilusitanamente separada em igreja para brancos e igreja para pretos dentro de um sistema rígido, cuja direcção imediata toca ao Eng.º Suceno; e a remota, a essa eminência, não sei se diga cinzenta, que é o Comandante Vilhena que em Lisboa colecciona imagens de santos ao mesmo tempo que dirige os homens, comanda os pecadores, regula a vida dos técnicos que trabalham no Dundo. ( ) O lamentável é dirigirem um sistema que em algumas das suas raizes e em várias das suas projecções não é sociologicamente português, prejudicado ( ) por um racismo que é de origem belga e por um excesso de autoritarismo ( ) sente-se na organização do Dundo um ambiente como que dominicano ou jesuítico.( ) De qualquer modo, ( ) o contacto, mesmo muito breve, com uma comunidade como o Dundo é uma aventura inesquecível. ( ) Tivesse eu tempo ( ) e procuraria demorar meses no Dundo( ) tenho de contentar-me em procurar ver ( ) o que me mostram e entrever o que vêm escondendo ( .) eu veja só o que lhes parece honroso para Portugal. ( ) Noto que no Dundo, há relutância em me mostrarem as casas de habitação reservadas aos trabalhadores indígenas. Em me informarem sobre o seu sistema de alimentação: até que ponto o desta redução como que jesuítica difere daquele a que se acham habituados os indígenas nas suas aldeias africanas.( ) Vejo apenas por for a as casas de habitação reservadas aos indígenas: casas cobertas por umas como folhas de zinco que devem torná-las infernais, nos dias mais quentes. Seria interessante que a Companhia de Diamantes, rica como é, e técnicamente arrojada como se mostra, se colocasse na vanguarda dos modernos estudos em torno do problema de casas para trabalhadores nos trópicos ( .)A não ser a conhecida solução para turistas : o da simulação. Mis do que isto: a mistificação.( ) No Dundo, o problema da habitação para o trabalhador indígena não é problema ecológica e económicamente resolvido; nem sequer é considerado a sério. Em compensação e por um como paradoxo o indígena doente é aqui objecto de uma assistência exemplar: talvez egoísmo do branco a resguardar-se das doenças dos pretos. Visitando o Hospital, na companhia do chefe de Serviços de Saúde, Dr. Picoto, sinto-me orgulhoso do trabalho organizado e mantido aqui por técnicos portugueses. ( ) Vejo além do hospital e dos serviços de radiologia, as maternidades. As maternidades para indígenas. As maternidades para europeus. Visito oficinas claras e arejadas. A chamada "casa do pessoal". O cinema, as salas de jogos, a piscina, os campos de jogos ao ar livre. A estação emissora, com a sua boa biblioteca. Destaque-se o facto de vir a Companhia de Diamantes realizando admirável trabalho de gravação de música folclórica dos indígenas da região.( ) impressionante ( ) Para um brasileiro, esta música avó do samba tem um interesse especialíssimo. ( .) Visito também o Museu Etnográfico mantido pela Companhia. Outra obra admirável pelo seu sentido cultural. O seu conservador, Mestre José Redinha, é um africanologista que eu quisera ver um dia no Brasil, para esclarecer os nossos estudiosos de origens africanas da cultura brasileira ( ). No Museu do Dundo, a arte kioka está representada tanto sob a forma de desenhos e pinturas como de esculturas. Uma riqueza magnífica ( ) No Dundo estas esculturas deixam-se admirar com uma exuberância rara. Consideram-no alguns o mais completo museu de arte kioka. ( ) Museu do Dundo, com colecções ( ) que nos permitem reconstruir a vida indígena em toda a sua pureza. Que nos prendem o interesse pela boa apresentação que sabe dar a material tão valioso o seu conservador. ( ) é obra de boa e honesta ciência de portugueses prestigiada por uma companhia que deve ter alguns dos defeitos que a acusam; mas que não precisa de ser farpeada demoníacamente ( ) para cumprir os seus deveres de empresa rica para com a cultura intelectual e artística da nação ( ) . a tendência da companhia de Diamantes e das companhias e empresas do seu tipo ( ) talvez seja para reduzir as culturas indígenas a puro material de museu. Os indígenas vivos interessam-lhes quase exclusivamente como elementos de trabalho, tanto melhores quanto mais desenraizados das suas culturas maternas e mecanizados em técnicos, operários e substitutos de animais de carga. A proletarização de tais indígenas, a sua segregação em bairros ( ) constitui um dos maiores perigos para a gente africana, do ponto de vista social e , ao mesmo tempo cultural. Está este perigo na destribalização ou desintegração demasiado rápida ( ) , sem que se verifique a substituição dos seus valores ancestrais por conjuntos de valores ( ) que ( ) dê-lhes toda uma nova base de desenvolvimento pessoal e social. As consequências, desfavoráveis ao indígena, ( ) são quase inevitáveis sob o impacto do industrialismo capitalista. ( .) Deixo-me fotografar, no próprio Museu, ao lado de um velho soba, vestido como nos seus velhos dias de príncipe e que a Companhia conserva para dar pitoresco às ruas do Dundo. Um pobre soba carnavalesco. A sua sobrevivência ( ) é simbólica de toda uma politica de exterminação violenta e rápida, das culturas indígenas ( ) O estado de "trabalhador nativo" do africano destribalizado ( ), é uma situação de condenado sociológicamente à morte. Baseia-se na concepção de ele ser inferior ao branco, não transitóriamente como cativo de guerra ( ) mas como raça. Biológicamente. Fatalmente. ( .) Levam-me ( ) a ver, na Lumparia, os engenhos onde se faz a selecção de pedras que seguem, seladas, para a Central de Escolha. Estamos em lugar como que sagrado. Raros são os indivíduos admitidos, como visitantes a intimidade tão profunda: os diamantes aqui faíscam em profusão.( ) informam-me que uma só porta deixada aberta nas costas das pessoas entradas é motivo para o responsável pelas chaves ser despedido imediatamente. Levam-nos às máquinas separadoras. Às trituradoras. ( ) Os detectives devem estar aqui em toda a parte. A Central de Escolha é lugar com alguma coisa de novelesco. ( ) Porque as máquinas ( ) não cumprem sózinhas a sua delicada missão, têm que ser auxiliadas por homens não só brancos como pretos. ( ) São estes pretos conservados na Central de Escolha como se fossem prisioneiros. Adolescentes, moços, solteiros, vivem meses sem lhes ser permitido sair da Central: um que saísse poderia ser portador de uma fortuna inteira em diamantes engolidos ou escondidos nas partes mais secretas do corpo. Vivem uma vida de seminaristas ( ) o seu viço de adolescentes tende a transbordar em afectos homossexuais.( ) Homossexualismo platónico o outro seria impossível sob a vigilância em que vivem ( ) lembro-me de ter visto danças entre estudantes de Oxford do mesmo, ou quase do mesmo sabor.( ) São bem alimentados, bem cuidados, bem alojados ( ) O sacrifício que se exige deles é o da segregação ( ) . Segregação, castidade, renúncia à mulher. Nunca sabem quando saem, que é para não se prepararem para a saída engolindo algum diamante. ( ) Termino a minha visita às instalações da Companhia de diamantes ( ) tendo sob os olhos milhões de cruzeiros sob a forma de diamantes espalhados sobre uma mesa de veludo negro. ( .) Visito ainda técnicos europeus da Companhia em suas bonitas casas, algumas de um sabor Californiano e com gramados que lembram os californianos. Com sebes de buganvílias. Com jardins à inglesa. Em Vila Andrade, servem-nos um lanche perfeitamente europeu sobre um gramado também perfeitamente europeu. ( ) De qualquer modo sinto a ausência da África; e este sentimento de ausência da África na África, em vez de me regalar, aflige-me. Sinto uma como saudade da África que está sendo esmagada, abafada, sacrificada para que a Europa e os Estados unidos estendam por terras africanas não só as suas maravilhas técnicas adaptadas ao gosto e às conveniências de povos tropicais como as suas banalidades, as suas futilidades, os seus excessos profiláticos de antitropicalismo. Aqui termina o capítulo 30 e termina a parte em que a Diamang é referida; Este livro inicia-se com a viagem a Portugal continental e logo no inicio há esta descrição in Agosto 1951 Cap. 16: "Recebo a visita de um grupo de estudantes pretos e mestiços da Angola.( ) Gente simpática, ainda que um tanto contraditória no que me diz de Angola. Que os portugueses não fazem pelos nativos da Angola o que lhes cumpre fazer, ( ) Outro, ( ) que a politica lusitana ( ) deveria ser a de deixar intactos os grupos primitivos para que o seu desenvolvimento se processasse normalmente. ( ) Cada um destes estudantes angolanos está com certeza a dizer-me uma verdade. Mas uma daquelas verdades bicudas, de que falava Ganivet: verdades que não se harmonizam umas com as outras. Só as verdades arredondadas se completam." |