Crítica de uma Crítica

DIAMANG Pág. Superior Aventura e Routina Crítica de uma Crítica

 

AVENTURA E ROTINA (CRÍTICA DE UMA CRÍTICA)

Ernesto Vilhena, 1954
(Presidente da Diamang)



[Isabel Reis] Tal como vos havia prometido, e graças ao apoio do Dr. Barros Machado, que gentilmente me ofereceu uma fotocópia da resposta do Comandante Vilhena a Gilberto Freyre, vou dar inicio à transcrição da mesma, e vou fazê-lo sem qualquer corte (o que não aconteceu no que vos enviei do Gilberto Freyre em que seleccionei partes);

Anotação manuscrita pelo Dr. Barros Machado: "foi publicado, creio, in extenso, no Diário de Notícias" o que deveria ter sido indicado neste folheto!"

 

"UNA COSA ES PREDICAR Y OTRA DAR TRIGO" ( Prov. espanhol)

 

«AVENTURA E ROTINAS»: onde encontrei eu já a indicação desta aparente antinomia da nossa acção nacional? Seria em Lúcio de Azevedo?

Com este título que, diga-se de passagem, encerra uma afirmação errada, ou de excessiva generalização, publicou, meses atrás, o escritor brasileiro Gilberto Freyre (com y, se me faz favor) um grosso volume de impressões pessoais, deficientemente interpretadas, de uma apressada viagem por algumas das nossas províncias ultramarinas. Estamos já longe do monumental trabalho que é <<Casa Grande e Sanzala>>, da nitidez do estilo e da elevação de conceitos de muitas das suas conferências e da notável <<Região e Tradição>>. <<Aventura e Rotina>> é um livro excessivamente longo, confuso e difuso na tradução do que se quis dizer, hesitante em certas apreciações, pelo receio de ferir à direita ou à esquerda (<<uma no cravo, outra na ferradura>>), e descendo, complacentemente, quase com delícia, à narração de casos escatológicos, que não têm cabimento em um livro sério. É também desagradável e um tanto pretencioso, o uso frequente de <<palavras difíceis>>, muitas vezes introduzidas a martelo na sua prosa, como o <<defroqué», a <<miscegenacão>> e o <<escravocrata>>, a propósito ou despropósito de tudo. Não eleva este livro os créditos de sociólogo e de escritor de Gilberto Freyre, e com pena o dizemos, porque, entre muita coisa acertada que os seus escritos contêm, o conceito do <<luso- tropicalismo>>_ está certo, na sua essência o que está errado é o fazer, dentro dele, da <<miscegenacão,,>, da mestiçagem, digamos, a condição forcada da acção portuguesa em África e o remédio para todos os nossos males, presentes e futuros.

Merecia este livro uma apreciação elevada e minuciosa, a um tempo, por pessoa competente, o que ainda não vimos. Pelo que me respeita, vou limitar-me à análise do que nele se contém relativamente à Companhia de Diamantes de Angola, cujas explorações ele visitou, em visita-relâmpago, de resto, como é moda agora; a correr e pelo ar. Porque este sistema, que devia estar reservado para atender a circunstâncias e objectivos especiais, é já de todos e para todos os casos; para estudar a terra e os homens já se não anda por caminhos da terra, nem nela se permanece: voa-se por sobre ela, e, quanto a convívio com os que a habitam, não se analisa nem aprofunda: depenica-se, aqui e ali.

Para começar

Inicia Gilbeito Freyre a sua visita a terras da Lunda por referencias que fazem rir. «Já com um dia inteiro de viagem, diz ele, pernoitamos em Dala, perto de tigres e de selvagens (o sublinhado será sempre nosso); não é vila nem sequer vilarejo; apenas (!) um Posto de administração portuguesa perdido em terras de Angola, que são como se fossem sertão de Mato Grosso». Não reparemos no «são como se fossem», que em escola de português implicaria uma má nota, e emendemos: 0 Dala não está «perdido em terras de Angola», porque é passagem obrigada de todos e de tudo o que, da linha do Caminho de Ferro de Benguela, sobe para as Explorações ou delas desce, isto é, de centenas de empregados da Companhia de Diamantes que, com suas famílias, vêm da Metrópole ou a ela regressam em férias, e dos muitos milhares de toneladas de material e de mercadorias diversas importadas do exterior, em um movimento continuo de camionagem, que parece ter escapado ao viajante. Ali não vivem «tigres» e raramente se verá um «leopardo»; e também não há «selvagens», porque o bom pretinho do Dala, como o de toda a Lunda, mantém de há muito estreito contacto com o branco e concorre, regularmente, com o seu esforço nos trabalhos da Companhia. E quanto à comparação com o «sertão de Mato Grosso», custa-nos observar a Gilberto Freyre que ou ele não conhece Mato Grosso, o que não é de crer, ou não conhece Angola, esta Angola em que, mercê dos esforços combinados de todos os que nela actuam, brancos e pretos, já não há «selvagens», já não há «sertão», e quase se pode dizer, no respeitante à Lunda, pelo menos, que já não há «mato». Esta querida e boa Angola, na qual uma pessoa, de qualquer nacionalidade, pode passear, sem preocupações de defesa, de uma ponta a outra, o que não é de aconselhar, como toda a gente sabe, quanto à região do interior do Brasil, que tão erradamente serviu de termo de comparação ao nosso viajante.

Esta «impressão», por que Gilberto Freyre está escrevendo, perfunctóriamente, sobre meras impressões, o que prejudica com frequência a feição de verdade científica que ele pretende imprimir a muito do que afirma, atenua-se, felizmente, porque logo adiante, chegado a Vila Henrique de Carvalho, o antigo Saurimo, onde, a Diamang construiu um verdadeiro bairro, para alojamento e descanso dos seus empregados ou outros viajantes em trânsito, já o escritor encontra a «civilização» e nos participa que «aí nos regalamos de civilização: banho de chuveiro, igual ao de vapor inglês, gelo, bom vinho, boa galinha». Faltaram os «quitutes», a que Freyre está habituado, e cuja introdução, ou imitação, na cozinha portuguesa, ele considera, e bem, como uma manifestação do luso-tropicalismo. Esta civilização, que logo se lhe depara em Vila Henrique de Carvalho, vai o viajante encontrá-la, de principio maravilhado, mas, logo depois, aborrecido, quase zangado (!) no Dundo, centro administrativo da Companhia. Ora vejamos:

«A sede da Companhia recebe-nos com luzes, que parecem de noite de festa, mas que são de toda e qualquer noite. É sempre noite de festa no Dundo, pelo contraste das suas muitas luzes com o escuro das matas e das próprias aldeias africanas». «Somos, hospedados de modo principesco; óptimos apartamentos com chuveiros e lavatórios modernos; negros ágeis e limpos, como enfermeiros de casas de saúde elegantes, ao serviço de cada um de nós. E depois de lavados, de ensaboados com sabonetes finos, de penteados, espera-nos um jantar de europeus realmente civilizados; de portugueses com alguma coisa de inglês na sua elegância e de francês na sua polidez, e até na sua cozinha; jantar servido dentro do melhor ritual europeu: pratas, cristais e iguarias ortodoxamente europeias. Entretanto, estamos dentro da mais profunda África; dentro de uma área africana que seduz os antropólogos e sociólogos pela primitividade dos seus ritos. Preside ao jantar a Senhora Sucena de Sousa; é uma dama portuguesa, que se não afrancesou de modo a perder a graça lusitana; que, tendo cursado Coimbra e estudado aí antropologia, não se artificializou em bacharela. Uma nobre figura de portuguesa capaz de ser embaixatriz de Portugal em qualquer capital, por mais «sofisticada», (do «sophisticated» americano) «e de conservar-se sempre portuguesa» na simplicidade e na naturalidade, embora europeia na cultura; completa admiravelmente o marido, o engenheiro Sucena».

Outras benemerências

Como se vê, o que vem dito constitui já na espécie de conta. de «Deve e Haver» que Freyre abriu à Companhia, um forte lançamento a seu crédito. Outros se seguirão a este, como se verá. E, assim: «0 indígena doente é aqui objecto de uma assistência exemplar. Visitando o Hospital, na companhia do Chefe dos Serviços de Saúde, Dr. Picoto, sinto-me orgulhoso do trabalho organizado e mantido aqui por técnicos portugueses; orgulho lusíada a que se acrescenta o particularmente brasileiro de encontrar no Dundo, em plena função, o aparelho inventado pelo meu amigo Manuel de Abreu para o que hoje se chama abreugrafia». Ainda sobre a assistência sanitária a brancos e pretos, a que a Companhia tem, de facto, dedicado os maiores cuidados, e com a qual gasta, anualmente, milhares de contos (mais, de 10.000 contos em 1953), diz o visitante: «Vejo, além do hospital, e dos serviços de radiologia, as maternidades; as maternidades para indígenas, as maternidades para europeus. Visito oficinas claras e arejadas; a chamada Casa do Pessoal, o cinema, as salas de jogos, a piscina, os campos de jogos ao ar livre, a estacão emissora, com a sua boa discoteca. Destaque-se o facto de vir a Companhia de Diamantes realizando admirável trabalho de gravação de música folclórica dos indígenas da região. Ouço algumas amostras: qualquer coisa de impressionante; para um brasileiro, esta música, avó do samba tem um interesse especialíssimo».
Este trabalho de recolha de música folclórica, que brevemente recomeçará, ainda com maior intensidade e amplitude territorial, a cargo do nosso empregado Pinho Silva, especialista na matéria, produziu já, até hoje, 1.050 canções, devidamente gravadas, e que apenas esperam, para serem largamente difundidas, a tradução para português e inglês da sua letra e das explicações que esta exige. Conhecendo o interesse que tal musica tem para o Brasil já, a nosso pedido, o senhor José Osório de Oliveira, que Gilberto Freyre bem conhece, fez ouvir alguns dos discos existentes, em Abril de 1952 no Auditório do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, acompanhados de uma interessante comunicação sobre «A alma negra» E será este mesmo nosso comum amigo quem fará ouvir no próximo Congresso de São Paulo vários -dos discos mais Característicos do folclore da Lunda, e apresentará ao mesmo Congresso alguns estudos a respeito do nosso Museu, e da musica e escultura quiocas. De resto, uma colecção completa desses discos foi já por nós oferecida, em 1952, para quando estivesse completada, pela maneira que acima se indicou, à Comissão Nacional do Folklore do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultos.

Sobre o «Museu. do Dundo», designação pela qual ele já é conhecido, e inteligentemente compreendido e apreciado, nos meios científicos de países os mais diversos e remotos, muitos dos quais não têm, ou quase não têm, outras relações com Portugal, diz Gilberto Freyre: «Visito, também, o Museu Etnográfico, mantido pela Companhia; outra obra admirável pelo seu sentido cultural. 0 seu conservador, Mestre José Redinha, é um africanologista que eu quisera ver um dia no Brasil, para esclarecer os nossos estudiosos, de origens africanas da cultura brasileira, sobre pontos para nós ainda obscuros, e que -ele conhece intimamente; promete-me uma rectificação de nomes de tribos e de grupos africanos, de que eram originários escravos importados de Angola pelo Brasil. No Museu do Dundo, a arte Quioca está representada tanto sob a forma de desenhos e de pinturas como de esculturas. Uma riqueza magnífica de esculturas africanas, daquelas que podem ser consideradas a eminência parda ou mesmo preta, por detrás dos grandes arrojos europeus da arte moderna. Consideram-no alguns o mais completo museu da arte Quioca». Também no relativo a estradas, Freyre reconhece que rodou mais de trezentos quilómetros por estradas da Companhia «aliás, óptimas».

Mas também aponta defeitos

Procuremos agora apurar que deficiências e erros nos atribui, o que não é tarefa fácil pela maneira, umas vezes vaga outras confusa, por que ele procede a tal respeito, chegando, frequentemente ' a não se perceber se fala a sério ou se, simplesmente, procura divertir-se a nossa custa. É típico, neste capítulo, o que se segue: <Há conforto no Dundo>, reconhece ele, mas é um conforto profilático e quase clínico; ao entrar no Dundo, Freyre o que <<mais sente>> é que a iluminação seja <<clínica e policial>>!, Elogia, largamente, como vimos, o nosso Serviço de Saúde, mas emite, conjuntamente, a dúvida se essa <<exemplar assistência>> não será <<egoísmo do branco a resguardar-se das doenças dos pretos>>, verdadeiro desconchavo que nem merece comentário, de tal calibre ele é. As luzes do Dundo, as já célebres luzes, sua primeira surpresa, «iluminam sofisticados jardins: formas civilizadas de um conjunto de vegetação tropical domesticada por mãos que sentimos desde o primeiro contacto não serem de portugueses mas de outros europeus». E difícil perceber, nesta passagem, se o que o apoquenta é os jardins apresentarem «formas civilizadas» (haviam de ser selvagens?), se o ver a «vegetação tropical domesticada» - quereria talvez encontrar no Dundo um trecho da selva amazónica o receio de que tivéssemos feito vir da estrangeiro especialistas para os criar. Descanse o ilustre sociólogo. Com um pouco mais de tempo na sua visita, que foi, apenas, de um escasso dia útil, ou se o houvesse perguntado, logo lhe explicariam que os jardins do Dundo, e os dos outros nossos centros urbanos», os diversos parques, incluindo o de Aclimatação - verdadeiro Jardim Botânico - a estufa fria, os viveiros de espécies indígenas ou exóticas, a colecção de fetos arbóreos, a de orquídeas e a de cactos e plantas gordas foi tudo imaginado e criado e está sendo mantido por portugueses (Almeida Santos, Abel Antunes), como, acompanhamento indispensável e complemento estético das inúmeras casas de tijolo vermelho, de que ele também não gosta porque lhe dão «a impressão de estar nos Estados-Unidos, na Califórnia»! Queria, acaso, o visitante vir encontrar em uma região onde nada estava feito, e onde tudo teve de ser imaginado, criado, e mantido por nós próprios, repetimos, segundo os modernos, e neste caso recomendáveis, preceitos da arquitectura e da higiene mais, adequados à permanência e trabalho de uma já numerosa comunidade de brancos, a 70,5 de latitude Sul, ou seja, quase à beira da floresta equatorial - queria ele que instalássemos aqui os respeitáveis e interessantes, mas antiquados, e neste caso inaproveitáveis, «sobradões» da sua terra, ou as moles imensas de tipo conventual da nossa, que para serem convenientemente utilizadas têm exigido alterações profundas?

Gilberto Freyre mostra-se fortemente aborrecido pela disciplina, pela ordem, pelo método, por todas aquelas feições características do que outros chamariam «uma completa e perfeita organização», e que, não chegamos a saber porquê, não cabe, segundo ele, dentro do seu conceito do luso-tropicalismo, como se este devesse forçosamente traduzir-se pela desordem, pelo «laissez-faire», pelo «laissez-aller», pela falta de exacta consciência do que se está fazendo, ou do que se pensa fazer. Cito-o, mais uma vez, para se não supor que estou exagerando: «Não, é difícil verificar-se, mesmo em rápido contacto com o Dundo, que a vida aqui vivida é regulada nas menores coisas. Que aqui todo o branco, todo o preto, toda a criatura humana é um. ser que se move, que se alimenta, que se diverte, que trabalha, que estuda, que sonha, que reza, que vai à Igreja - antilusitanamente separada em igreja para brancos e igreja para pretos (não é verdade) «dentro de um sistema, rígido, cuja direcção imediata toca ao engenheiro Sucena». A seguir elogia o Director-Geral e o signatário desta nota, como pessoas capazes «de dirigir, de organizar, de administrar homens, e não apenas de produzir diamantes e continua: «0 lamentável é dirigirem um sistema que, em algumas das suas raízes e em várias das suas projecções, não é sociológicamente português, prejudicado, como se acha, por um racismo, que é de origem belga (que disparate!). e por um excesso, de autoritarismo, que e também exótico em sua origem e em seus métodos Felizmente, o engenheiro Sucena sabe dar a estes métodos algum sabor português; e como em tudo o que e mais grandiosamente português parece haver alguma coisa, ou de mouro, ou de monástico, sente-se na organização do Dundo um ambiente como que dominicano ou jesuítico. Tenho a impressão que as reduções jesuíticas na América do Sul foram em ponto grande e sob a forma de constelação sociológica o que o Dundo é em ponto pequeno e solitariamente: uma comunidade regulada e fiscalizada de tal modo no conjunto da sua vida quotidiana que ninguém aqui tem vida individual ou privada. Tudo acontece às claras, como desejava Augusto, Comte. Ás claras e ao som de sinetas matematicamente exactas. 0 próprio amor (?!) ». E a seguir - já o esperávamos pelo crescendo das afirmações transcritas nova comparação com as «reduções jesuíticas» do Brasil (já Oliveira Martins falara do «Paraguay jesuítico»), «reduções», diga-se de passagem, e Freyre esquece-o, sem as quais a população amerindia do seu país teria inteiramente desaparecido por efeito da acção, épica sem duvida, (ninguém a admira mais do que eu), mas por vezes destruidora das «bandeiras» paulistas.

É de notar, antes de mais nada, que todo este conjunto de afirmações categóricas obteve-o Gilberto Freyre de «um. rápido contacto», de um contacto «mesmo, breve». E é Dor isso que, caindo, um tanto em si, como, felizmente, muitas vezes lhe sucede, conclui, e agora com toda a razão: «De qualquer modo, para um estudante de sociologia, o contacto, mesmo muito breve, com uma comunidade, como é o Dundo, é uma aventura inesquecível, e a tal ponto conclui ele ainda, em nova confissão da superficialidade destas suas impressões, «que tivesse eu tempo a minha disposição procuraria demorar meses no Bundo; meses de puro e vagaroso estudo, observando o comportamento humano dentro de raras condições de controle científico».

0 visitante exagera

Em tudo o que vem escrito há um evidente e lamentável exagero. Freyre faz literatura à nossa custa; tendo começado um período, que lhe saiu bem, foi por aí fora, dando largas à sua fantasia, sem reparar no que deixou escrito. Que esperava ele encontrar no Dundo? Um «carnaval, carioca», ou um «ballet samba-fadinho em sessão permanente»? Freyre esquece, ou não chegou a perceber, que não se encontra em uma qualquer simples vila ou lugar habitado de Angola, mas no centro administrativo de uma grande empresa industrial, amplíssima nos seus objectivos e na área em que presentemente actua (30.000 km.: quase um terço de Portugal continental), com uma população de cerca de 80.000 almas, verdadeira «torre de comando» e centro vital de uma organização em que trabalham 332 europeus (acompanhados por 417 mulheres e crianças) e cerca de 17.000 indígenas, reunidos e organizados com vista a um objectivo bem determinado, que é o de extrair diamantes de um vasto território pelos processos os mais perfeitos que vão sendo descobertos, e, sem exageros condenáveis e contraproducentes, em condições de boa administração e de economia, que permitam retribuir o capital invertido no empreendimento e proporcionar ao Estado a justa compensação das concessões, facilidades e vantagens que entendeu dever conceder. Dessa actividade, básica e fundamental, representada pela laboração de 38 instalações mineiras, espalhadas em amplíssima área, brotaram outras, acessórias mas indispensáveis da primeira, como a da ampliação da assistência sanitária e alimentar a toda a população, da «circunscrição» a da criação de gado de várias espécies, necessário para garantir alimentação apropriada e abundante, a brancos e a pretos: a de possuir armazéns convenientemente abastecidos para satisfazer as necessidades, e mesmo as fantasias, da população branca e da indígena, uma e outra cada vez mais exigentes quanto a condições de vida tanto materiais como intelectuais; a de organizar, ou facilitar a organização das relações sociais, as distracções, os divertimentos, as festas de toda essa gente, que Gilberto Freyre viu séria e grave, com «Iinha», mas que gosta imenso de se divertir e aproveita para isso todas as oportunidades e os meios materiais postos largamente à sua disposição para esse fim, - até o «fogo de vistas», como na «Senhora da Agonia» -não se esqueça, Gilberto Freyre, de o incluir no seu «luso-tropicalismo».

Esse conjunto de actividades diversas mas todas necessárias, formam já, pelo pessoal que delas se ocupa e os enormes valores que representam, todo um mundo, um enorme complexo de órgãos humanos e mecânicos cuja concatenação. e funcionamento harmónico exigem um código e regulamentos adequados, e um comando que a tudo presida e tudo decida em última instância. Sem uma hierarquia bem esclarecida, em que cada um saiba qual é o seu lugar, e se sinta bem nele, e mal quando dele sai, sem ordem, sem método, sem um espírito de frequentes e fáceis contactos e de trabalho intenso e produtivo, tudo isso que Gilberto Freyre lá viu, e o muito que, por pouco se demorar, não pôde ver, descairia com o tempo, para a facilidade, o relaxamento e a improdutividade de tudo o que é deficientemente organizado e fracamente inspirado, e dirigido.

É esse um sistema tão rígido como pretende o nosso, visitante, é ele tão apertado que ali «toda a criatura humana só se move, alimenta, etc., dentro desse sistema e ao som de sinetas, matematicamente exactas»? De modo algum. Em tal regime muito mais acentuadamente do que em outros em que a liberdade parece ilimitada e praticamente não existe, o empregado não é uma coisa, mas um indivíduo, uma pessoa, cujo modo de pensar se respeita, de cujo futuro se cuida, um elemento vivo de trabalho, cujas aptidões se aproveitam e aperfeiçoam o mais possível, em benefício da Empresa que serve, sem dúvida, mas também dele próprio. É esse regime tão autoritário, como Freyre o afirma? Se o fosse, como compreender que se mantenham ao serviço da Empresa indivíduos com 15, 18, 20, 25 anos de serviço efectivo, em África muitos deles em cargos de pesada responsabilidade, outros em serviços exigindo aturado esforço físico? Como se explicaria que empregados saídos dela, por vontade própria venham, fartos de outros patrões, pedir a sua reintegração? Como reconhecer que velhos e dedicados colaboradores, passados, a seu pedido, à situação de reforma e pensão vitalícia nos escrevam cartas de fundo sentimento, em que se lêem trechos deste teor: <<Não é sem mágoa, profunda e duradoura, que deixo o vosso serviço e sem dúvida sentirei a nostalgia do <<clima>> africano, com tudo o que ele tem de bom e mau: também, jamais poderei esquecer a forma carinhosa como sempre fui tratado pelos dirigentes da Companhia. Chegou pois o momento, Senhores, de vos dizer adeus, como elo da grande cadeia da Diamang, afirmando-vos que, enquanto vivo for, jamais deixarei de ser o que sempre procurei ser durante três décadas: servidor fiel e reconhecido)> e outro: <<Esgotadas as energias que por tanto tempo pus ao serviço da Companhia de Diamantes... não tenho pejo em afirmar que durante esses anos pus ao seu serviço tudo quanto julgo de bom: lealdade, dedicação e boa vontade... E porque isto é o princípio do fim e ninguém gosta de chegar ao fim, ao escrever-vos estas linhas sinto-me como despedido deste mundo, e o meu mundo era a Diamang! Lá vivi, gozei e sofri o melhor dos meus dias! No meu rincão, com meus filhos e netos procurarei que eles mitiguem a saudade
desses dias que jamais voltarão>>.Como perceber que empregados de nacionalidade belga, tanto do ramo técnico como administrativo, gente que tem da liberdade uma noção bem vincada, aguentem durante 25 anos aquela suposta tirania da nossa organização industrial, e hesitem, ainda, ao cabo desse longo período de trabalhos e canseiras em nos deixar, oferecendo-se mesmo para continuarem a colaborar connosco, na medida das suas futuras possibilidades?

<<Não há vida individual; há excesso de autoritarismo; o sistema não, é sociologicamente português sentencia Freyre; pois eu respondo-lhe que, com todos esses detestáveis malefícios, transformamos os homens, fazendo de gente de fraca cultura e criada em um nível baixo de vida, pessoas de relativa ilustração, que gostam de viver bem e apreciam tudo o que a civilização proporciona ao homem para melhorar a sua condição física e intelectual: que de gente pobre fazemos pessoas de meios porque, sem falar no produto de economias já consolidadas em terrenos, ou prédios, não será difícil encontrar, entre os vários Bancos da Metrópole em que os nossos empregados depositam os seus fundos um, pelo menos, em que o saldo das suas contas correntes se cifra em muitos milhares de contos. Não sei se o sistema é ou não «sociologicamente português>> - que Gilberto Freyre o classifique como melhor lhe pareça o que sei é que dentro dele tem sido possível, a pessoas partidas de situações humildes, elevarem-se pelo simples merecimento e esforço individual e o correspondente reconhecimento superior de tais valores, à alta função de directores gerais do empreendimento.

Com todos estes relevantes predicados de matéria e de espírito, que falta, então, ao sistema da Companhia de Diamantes para que Gilberto Freyre possa admiti-lo? 0 que lhe falta, o próprio no-lo revela quando, chegado a Vila Luso e restituído ao que ele chama um <<Portugal tetúricamente africano>>, vê louros dançando com mestiças e rapazes de cor bailando com moças ruivas>>. 0 que lhe falta, segundo ele - <<tenez-vous bien>>, diria um francês, nesta altura - é aquilo mesmo; é ser:<<democraticamente mestiço»!

Obsessões de ordem policial

Entre as diversas impressões que parecem dominar Gilberto Freyre durante a sua permanência - muito curta como já dissemos - nas Explorações da Companhia, e que se apresenta mesmo como uma verdadeira obsessão, figura a de que é vigiado, a de que um serviço policial, provavelmente perfeito em organização e incessante na forma de actuar, o acompanha por toda a parte! No Dundo, logo ao entrar, como já se apontou, a luz, mormente a abundância de luz, é «policial», porque, imagina ele, essa luz deve ser indispensável «contra possíveis ladrões de diamantes que se pudessem aproveitar das sombras normais da noite, do escuro das noites tropicais, para investidas contra os cofres em que se guardam centenas de diamantes; sente-se que nenhum estranho, nenhum empregado da Companhia, nenhum branco, nenhum preto é aqui um homem à vontade, mas um indivíduo vigiado, espiado, subtilmente fiscalizado por secretas (si)». Ora sucede que no Bundo, se há cofres, como é natural, nenhum deles contém diamantes, por que é na «Estação, Central de Escolha» de Andrada, que se concentra a produção da Companhia, seguindo dali directamente para o seu destino na Europa; e por isso se vê já quanta leviandade o escritor põe em muitas das suas afirmações. Esta desconfiança, de ordem policial, segue-o sempre, a ponto de, quando visita aquela estação, ele repetir: «Os detectives devem estar aqui, em toda a parte»; vai ainda mais longe: as máquinas como que assumem, aos seus olhos, formas e funções humanas ou diabólicas « ... as máquinas separadoras, as trituradoras; máquinas inteligentíssimas, silenciosas, secretas, confidenciais, parecem agir, também, como cúmplices de detectives»! Mas não o tomemos muito a sério nesta infeliz passagem do seu livro, porque ele próprio, logo depois de acrescentar que «o ambiente é de novelas ou de fitas inglesas de mistério», reconhece serem estas «as novelas e fitas de cinema da minha predilecção». E foi, de facto, o que o vulgo chama uma fita, no sentido pejorativo da palavra, o que ele pretendeu fazer à nossa custa.

Novas desconfianças

Outras desconfianças acompanham o ilustre visitante que, em mais de uma passagem, se mostra ressabiado (permita-se-nos o uso do popular vocábulo) por, em outros lugares onde esteve, lhe terem escondido coisas que ele desejava ver e não lhe mostraram, ou de que lhe mostraram só o que convinha que ele visse: e é assim que, atribuindo-nos os mesmos intuitos, nos acusa de termos procedido de igual forma no relativo à alimentação dos trabalhadores indígenas e às habitações que a Companhia lhes proporciona a eles e suas famílias, durante o período dos seus contratos de prestação de serviço. Não recebemos, da Lunda informação sobre o que se passara com o Sr. Gilberto Freyre quanto ao primeiro daqueles assuntos, mas conhecendo a boa vontade e prontidão com que o nosso pessoal dirigente acolhe sempre todos, os pedidos de informação ou de esclarecimento que os visitantes de categoria, ou oficialmente autorizados lhe formulem, só posso atribuir a <<relutância>> que Freyre menciona ao facto, inibitivo de largas explicações, de ele permanecer tão pouco tempo na Lunda. Pelo que leio, fico sabendo que ele desejaria ter conhecido «até que ponto o sistema (de alimentação ) desta redução como que jesuítica» (já é mania!) «difere daquele a que se acham habituados os indígenas nas suas aldeias africanas; quais as inovações; quais os resultados dessas inovações sobre a capacidade de trabalho de pretos, acostumados a trabalho tão diverso daquele a que são obrigados, tão diverso na natureza e tão diverso no ritmo».

É todo um inquérito esta série de perguntas, mas a ele teria o nosso pessoal respondido, com prazer, se lhe dessem tempo para tanto, embora

nada tivesse a acrescentar ao muito que a tal respeito tem sido comunicado às instâncias oficiais competentes, ou publicado para conhecimento público. Que se não leve, porém, a mal que empregados sobrecarregados de trabalho tenham entendido não valer a pena entregarem-se a desenvolvidas explicações a um visitante que passa correndo, sem possibilidade de dar ao que se lhe expõe a devida atenção e muito menos de entrar a fundo, como conviria, em uma matéria de sua natureza complexa. Descanse, porém, o ilustre sociólogo, quanto às condições de alimentação e outras que a Companhia de Diamantes proporciona aos seus trabalhadores. Em resumo, posso dizer-lhe que elas são infinitamente superiores às que vemos existirem nas explorações de diamantes do Brasil e de que um seu conterrâneo, o escritor Herberto Salles, nos dá pungente noticia no seu documentadíssimo livro «Cascalho». Entre nós é abundante a alimentação proporcionada aos trabalhadores e suas famílias, variado nos géneros que a compõem, e em que figuram a carne, o peixe seco e as frutas, e, muito superior, consequentemente, à escassa e fraca que ele pode conseguir nas regiões de origem. 0 indígena, sempre escolhido segundo certo critério de robustez que temos conseguido manter, habitua-se, facilmente, ao serviço das minas, que muitos conhecem já de contratos anteriores e aumenta, em geral, de peso durante o contrato; dá-se-lhe oportunidade para se divertir em competições desportivas e em festas, entre as quais a chamada «Festa Grande», que se realiza anualmente, com muitos milhares de assistentes. Nela se distribuem medalhas e prémios pecuniários aos trabalhadores que se mantiveram ao serviço durante certos períodos de tempo; aí, em universal «batuque», se dança até de madrugada e se comem bois inteiros; festa já de larga e justificada fama em toda a Província. Goza o indígena de transporte mecânico para vir das suas terras e no regresso a elas, podendo dizer-se ainda que tudo aquilo que podia beneficiar o nosso trabalhador se lhe concedeu, por um conjunto de disposições as mais variadas e, que, incessantemente, procuramos melhorar, em obediência, de resto, a uma das divisas da nossa Empresa, que constantemente nos inspira e que reza, assim: «0 que não se aperfeiçoa, fossiliza-se».

A habitação para indígenas. Reflexões à margem

Refere, também, Gilberto Freyre que houve relutância em lhe mostrarem «as casas de habitação reservadas aos indígenas»; que as viu «apenas por fora e eram casas cobertas por umas como folhas de zinco; seria interessante que a Companhia de Diamantes, rica como é, e tecnicamente arrojada como se mostra» (parece que à «rotina» escapamos nós), «se colocasse na vanguarda dos modernos, estudos em torno do problema de casas para trabalhadores nos trópicos: estudos que já tiveram a sua primeira sistematização em congresso reunido, há poucos anos na Venezuela; ninguém pense que o problema seja fácil; é dificílimo».

Ora bem; não nos parece a nós que este problema seja «dificílimo de resolver»; no que diz respeito à Companhia, resolve-se - está já resolvido, praticamente - com o conhecimento, que nos não falta, das condições especiais do clima, do indivíduo a alojar, do trabalho que ele presta, e ainda da economia geral da indústria em cujo quadro o problema tem de ser resolvido. Não é necessário para nada «que nos coloquemos na vanguarda dos modernos estudos em torno do problema», e o que dizemos em relação à Diamang, é exacto, também, em relação aos demais empreendimentos da Província. Porque, deixe-nos Gilberto Freyre afirmá-lo, em risco de passarmos por retrógrados: as dificuldades que têm prejudicado a solução prática de muitas das questões que se nos deparam no campo da acção colonial, provêm, precisamente, do alarido que, presentemente, se faz à roda delas, da tendência para ver problemas em toda a parte, de os inventar quando eles não existem, de supor que é à força de literatura, de reuniões, de congressos e das inevitáveis discursatas que elas mais rapidamente, e mais prática e sensatamente se resolvem. Por isso, não hesitamos em o dizer: metade do que hoje se publica, por esse mundo, sobre matéria colonial, é para deitar fora, porque se limita a repetir muito do que já sabíamos, ou serve só para apresentar, sob formas inexactas ou excessivas, os dados dos problemas e as suas pretensas soluções; fazer supor que destas as mais avançadas serão sempre as melhores, introduzir a confusão e a hesitação no espírito de muitos que, não o tendo preparado para a acrobacia mental em que os novos «descobridores da África» se comprazem, se convencem, verdadeiramente ou para não parecerem menos inteligentes ou menos avançados de que, como dizia o outro, «também são da bulha».

Desde que os Estados Unidos da América, com uma condenável leviandade, ignorância evidente da matéria e falta de visão das consequências do que estavam fazendo, se entregaram a manifestações de anti-colonialismo, o que deu grande alento aos Fabianos de Londres e facilitou a acção revolucionária dos comunistas de todo o mundo, logo se perceba que a questão colonial ia passar a ser tratada, não de harmonia com os superiores interesses dos povos atrasados, e do seu lento mas efectivo ingresso em a nossa civilização, mas por princípios abstractos, («Perissent les Colonies plutôt qu'un principe», dizia a Revolução Francesa), em marcha acelerada e desordenada para objectivos ainda mal definidos, ou que, quando realizados, o foram por fórmulas políticas que a ninguém satisfizeram, e deixaram de pé os anteriores problemas da raça e do trabalho, do convívio social, do esforço e acção harmonicamente orientados em vista do bem geral da comunidade. Assim se subverteu o antigo respeito dos povos dependentes para com quem os redimiu do estado bárbaro e miserável em que muitos haviam estagnado durante séculos; assim se provocaram chacinas; assim se criaram novos Estados, se tal nome merecem embaraçados em lutas internas, faltos de elementos de competência técnica ou política, ou de recursos que lhe assegurem um futuro sólido; assim se decompôs o velho império Britânico, genial criação nunca igualada, reduzido hoje a um aglomerado, lasso e incongruente, de elementos heterogéneos. Assim nos acontecerá a nós próprios se não soubermos resistir ao contágio, que não está longe, porque se nota já em um dos nossos vizinhos em África que, sempre no receio de não parecer assaz progressivo, se abalança a realizações ou projectos de socialismo indígena cujos encargos deveria ele saber bem quanto lhe pesam na Europa.

Não nos, deixemos deslumbrar, ou simplesmente arrastar, por exemplos alheios. Toda essa «avançadíssima» gente poderá apodar-nos de atrasados. Embora: eu continuo sustentando que esse suposto atraso é que nos está permitindo, muito mais fácil e produtivamente do que a outros, criar às populações indígenas as condições de bem estar, de progresso, de paz e tranquilidade, de compreensão simpática entre elas e nós, que serão o final coroamento dos quatro séculos da nossa vida em comum ; de quatro longos séculos de labutas e canseiras, mas durante os quais, trabalhando lado a lado, conseguimos, em boa camaradagem, fundar, consolidar e fomentar um Império.

Ainda a habitação

Dizíamos, pois, que o problema da habitação para o indígena se acha resolvido nas Explorações da Companhia e sem necessidade de... congressos. De facto, e por aí há que começar - como lembra Gilberto Freyre em certa passagem do seu livro, parafraseando uma expressão de Pascal: <<a choça vegetal dos, trópicos é como o coração, tem as suas razões que a razão não alcança>>. Para o puro indígena, que ainda não assimilou certas expressões da nossa civilização, e nesse estado se encontra a grande maioria dos 17.000 trabalhadores que temos em serviço, a «palhota à maneira da terra>> é, ainda, a habitação ideal, que prefere a qualquer outra, com a sua fogueirinha ao centro, que tanto o protege da frieza das noites e lhe assegura um aconchego e uma intimidade sexual que em outra habitação mais vasta e, para ele, complicada, lhe faltariam. Esta preferência do indígena, que poderá parecer inacreditável. aos teóricos da colonização, recebeu confirmação prática, aquando do abandono pela Companhia das habitações para europeus da cessante mina do Chingufo, sem que se notasse por parte da população indígena a menor tendência para se aproveitar do abandono. Há ainda a considerar, no nosso caso especial, que um grande número de trabalhadores serve a Companhia por contrato de alguns meses, findo o qual regressam às suas terras, e nenhuma vantagem havia, para eles, nem para nos, em que se iniciasse, pelo confronto entre o que teriam deixado e o que voltavam a encontrar na terra de origem, aquela <<destribalização>> (perdoe-se o galicismo, hoje usual), tão justamente condenada em relação ao grosso das populações indígenas que por muito tempo ainda terão de continuar subordinadas, nos seus usos e costumes, às condições originais dos grupos étnicos a que pertencem. A esta razão fundamental acrescem outras, já derivadas da natureza e condições especiais da exploração mineira e é que, pelo termo natural de certas minas, as; habitações que, com carácter mais estável do que a palhota e de muito mais elevado custo, houvéssemos construído, deixariam de utilizar-se, e teriam de ser destruídas, com perda sensível e prejudicial à economia geral da exploração, por não existir nas proximidades quem delas desejasse aproveitar-se; ainda recentemente um caso destes se produziu, pois tivemos de demolir 108 habitações por cessação do trabalho em minas a cujos trabalhadores elas se destinavam.

Foi nesta ordem de ideias que se resolveu o problema da habitação dos trabalhadores contratados para a exploração mineira, embora, evidentemente, completando e aperfeiçoando o tipo indígena e agrupando as casas de maneira a formarem. verdadeiras aldeias na proximidade das minas que haviam de servir. A construção foi feita com adobes, com suas juntas a imitar o tijolo, portas e janelas na medida do necessário, varanda à roda, que o indígena muito aprecia, e cobertura a colmo. Casas separadas umas das outras, mas com serventia comum a latrinas, terraços para a secagem de mandioca, recintos cobertos para reuniões e outras necessidades da vida indígena seus pomares e cercados de vedação, tudo de maneira a formar conjuntos de boa aparência e mesmo de apreciável estética. Uma secção especial de serviços, a «Secção de Propaganda e Assistência à Mão de Obra Indígena», tem, entre outros seus numerosos deveres, o de vigiar, constantemente, pela boa ordem, limpeza e aparência geral destes agrupamentos, pela reparação das habitações depois da época das chuvas, pela desinfecção interior delas, e de prover a outras necessidades que, no geral ou em particular, os seus habitantes venham a manifestar. Para os trabalhadores indígenas especializados, ou outros que hajam de permanecer, por tempo apreciável, junto dos centros urbanos da Companhia, adoptou-se um tipo de casa com características de maior avanço, quanto aos materiais empregados, a sua aparência exterior e disposição interna; a casa é já de tijolo de barro cozido, pavimento cimentado e cobertura de alumínio. Para os nativos da classe de assimilados outros aperfeiçoamentos se adoptaram, também.

É provável que, cedendo a instâncias das autoridades, o tipo de casa das povoações de trabalhadores contratados venha a ser modificado; esperemos que, mesmo assim, se não esqueça o carácter temporário dessas instalações, e a conveniência de, ao contrário do que outros estão fazendo, não ir além do «quantum satis», tão aplicável a habitações como a qualquer outro elemento da vida humana, tão necessário em relação a pretos como em relação a brancos. Nisto do progresso, «a torto e a direito», há também uma «inflação», que se impõe evitar.

A mecanização

Uma outra suposta deficiência que Gilberto Freyre aponta em a nossa organização diz respeito à falta de mecanização da exploração mineira cujo mais duro trabalho consistia, segundo ele, na escavação e remoção de terras, acrescentando que as realizávamos ainda um tanto arcaicamente, e que essa mecanização correspondia a um dos maiores empenhos da autoridade local, «pois a mão de obra não é fácil em terras angolanas», dizia, «algumas escassamente povoadas, o que obriga a poupar o homem o mais possível substituindo-o pela máquina». A necessidade da mecanização geral das explorações mineiras e serviços conexos nunca deixou, de ser por nós compreendida, e podemos mesmo afirmar que essa mecanização se vinha já efectuando, lenta mas gradualmente, na ideia de podermos tornar menos dispendiosa a exploração e de libertar mão de obra que em outras ocupações poderia ser aproveitada. Ocorria, porém, que a mecanização geral, ou em larga escala, das nossas operações, não só estava dependente do conhecimento dos resultados obtidos pelas Empresas congéneres da África do Sul, da adopção, por elas então tentada, de novos maquinismos e processos de trabalho, que se dizia aumentarem consideravelmente as percentagens de recuperação de diamantes dos concentrados obtidos, mas ainda de possuirmos os recursos financeiros indispensáveis à aquisição e instalação desses numerosos e complexos maquinismos, e de outras muitas e diversas maquinas, como as enormes escavadoras, os grandes camiões basculantes, os «bull-dozers>, os tractores, as sondas e outro material diverso, todo ele de elevado custo, de muito oneroso transporte, e exigindo técnicos especializados para a sua instalação e funcionamento. 0 estudo desse plano geral de mecanização foi-se completando, gradualmente -pode mesmo dizer-se que só há pouco se conseguiu esclarecer certas dúvidas, derivadas da maneira por que se comportavam, teimosamente, os nossos diamantes perante certos tratamentos em outras explorações bem sucedidos - e só pôde entrar no caminho da larga e rápida realização depois de a administração da Empresa ter conseguido, mercê das reservas de contabilidade de tesouraria constituídas em anos favoráveis, reunir os fundos necessários para fazer face aos enormes encargos que tal realização exigia, sem necessidade de recorrer a auxílios externos, representados por empréstimos ou pela emissão de obrigações. E avisadamente procedeu porque, se juntarmos àqueles encargos o da instalação, em um dos grandes rios da Lunda, de um aproveitamento hidroeléctrico, absolutamente indispensável e já em execução, da força máxima de 12.000 cavalos, o total da despesa deve subir acima de 300.000 contos

As origens. Supostas influencias estrangeiras

Em mais de um lugar da parte do seu livro em que se ocupa da Companhia de Diamantes, Gilberto Freyre embora sem insistir, excessivamente, o que é para agradecer se nos lembrarmos de que, neste Pais, todo aquele que não encontra por que nos atacar, se agarra ao recurso, embora já estafado, de nos qualificar de empresa estrangeira, de dominados por influências belgas e outros lugares comuns, mas, por isso mesmo, de êxito assegurado -Gilberto Freyre diz que, por mais que eu a venha aportuguesando, a Companhia <<guarda alguma coisa de irredutivelmente belga em seu modo de ser, empresa europeia em terra africana e entre populações africanas», e que o nosso sistema «é prejudicado por um racismo, que é de origem belga».

Afirmações sem fundamento, que o escritor teria grande dificuldade em precisar, se lho pedissem, e que ele próprio se encarrega de contraditar quando, mais adiante, em outro passo do seu livro, observa que a Bélgica «procura imitar Portugal na sua política social em relação a gentes de cor», o que, aliás, não é exacto.

Ninguém nega a parte muito importante que certas sociedades mineiras, constituídas no Congo Belga, muito antes da nossa, tiveram na criação desta última, uma vez que se descobrira no Congo o primeiro diamante, o que naturalmente levava a supor, e com razão, como depois se reconheceu, que os deveria haver, também do lado de cá do rio Kassai, limite leste da nossa Lunda. É facto que dali nos vieram os primeiros pesquisadores e, depois, o grosso do pessoal de que necessitávamos, como vinham, também, os abastecimentos de diversa natureza, que nos eram indispensáveis, e que por outro processo não alcançaríamos, porque circunstâncias de muitos ignorada ou de que propositadamente se esquecem -não estavam ainda estabelecidas, em condições de fácil uso, as comunicações da Lunda com a parte restante de Angola, e muito menos com a sua costa marítima, por onde, não existindo aquele embaraço, nos poderíamos abastecer do exterior. Vivemos, assim, realmente, durante alguns anos, sob a asa protectora da Forminière, empresa, também extractora de diamantes, que larga, intensa e generosamente, nos amparou nos nossos primeiros passos. Estrangeiros - americanos -, foram os primeiros directores técnicos da rudimentar exploração, como não podia, também, deixar de ser, por isso que entre nós se ignorava inteiramente, no ramo da engenharia, a especialidade da mineração do diamante, o que, de resto, sucedia, também, embora em menor escala, entre os belgas. Assim vivemos, de facto, durante algum tempo - «com a cara voltada para a colónia vizinha» disse eu em relatório em tempos apresentado superiormente - mas logo que o Caminho de Ferro de Benguela avançou para o interior, e que as restantes vias de comunicação se normalizaram, a situação mudou inteiramente, e, a passos rápidos, embora por vezes difíceis, a Companhia foi tomando consciência de si própria, das suas grandes possibilidades, da função acentuadamente benéfica que poderia assumir na economia de Angola, e no seu geral desenvolvimento. Não negamos as origens de onde provimos, nem esquecemos os auxílios recebidos de início, e que tanto apressaram a nossa eclosão e crescimento e, facilitaram o desenvolvimento da empresa - pessoas agarradas aos velhos princípios, sabemos ser gratos, e temos a coragem de o manifestar. Se dos trabalhos locais subirmos à Administração na Europa, também com reconhecimento poderemos afirmar que nos elementos. estrangeiros que nela têm tomado parte encontrámos, sempre, indivíduos de alta categoria financeira e social, gente competente, hábeis construtores e organizadores, homens de largos horizontes, peritos na criação e progresso de grandes empreendimentos, e habituados a medir as circunstancias, os homens e o seu valor e serviços, por critérios amplos e de alta compreensão.

Todas essas circunstâncias que acompanharam os primeiros anos da vida da Companhia nenhuma especial influência tiveram na sua posterior orientação, na sua maneira de ser e manifestações e, designadamente, na sua política indígena. A tendência, que em tempos dominou os sociólogos e até os verdadeiros historiadores, de tudo ou quase tudo, pretenderem explicar por influências próximas ou remotas ou por intercomunicações de ordem física, suponho-a já posta de lado, na sua generalização, pelo menos. 0 preto do rio Zambeze, que deseja segurar a sua «almadia» perto da margem, não precisa, para a amarrar a um «pondo» cravado no leito do rio, de saber que o pescador de qualquer rio metropolitano, procede de igual maneira para obter idêntico fim. Mesmo em plano mais elevado, eu próprio mostrei, quando em tempos escrevi sobre o «Regimen dos Prazos da Coroa da Zambézia», que, para se organizarem em sistema feudal, os conquistadores portugueses dessa região, nos séculos XVI e XVII, não precisaram de saber que pela mesma época, no México ou no Japão, existia um feudalismo semelhante. Para explicar e, tipo usualmente adoptado para a casa de habitação dos centros urbanos da Companhia, não necessitamos de lhe descobrir uma origem californiana, basta considerar: que o calcário não existe ali, que o barro de possível aproveitamento se não presta ao fabrico de boa telha, mas que, ao mesmo tempo, pode dar um bom tijolo; que o cimento é de fácil importação e que a chapa de zinco eu de alumínio substitui com vantagem a primitiva cobertura de capim - para, no próprio local e independentemente de qualquer influência exterior, chegarmos a assentar com que materiais teremos de erguer as nossas construções; e basta a consideração de que elas se destinam, não a homens solteiros mas a famílias, para impor a sua separação e independência umas das outras. E, já agora, reconheça-se, também, que quanto ao aspecto arquitectónico, e ao quadro vegetal em que tais construções se vêem emolduradas, bastará que à testa dos serviços da Companhia estejam pessoas de gosto e conhecedoras das condições climáticas locais para que, relativamente a esses dois aspectos da construção e agrupamento urbano, se encontrem formas agradáveis à vista, higiénicas, e adequadas à distracção e recreio dos seus habitantes - sem a necessidade das influências californianas por Gilberto Freyre imaginadas.

A politica indígena

Análogas reflexões faríamos quanto à maneira de nos conduzirmos para com os numerosíssimos trabalhadores, de cujo esforço depende, essencialmente, o funcionamento da vasta e ramificada actuação desta empresa mineira. Afirmar que a política da Companhia é a de «racismo» e que esse racismo é de origem belga são duas tolices «acopladas», como agora se diz, que nos não surpreendem, contudo, por Gilberto Freyre nos ter já habituado às afirmações, sem fundamento, produto de impressões colhidas à pressa e mal assimiladas. Poderá chamar-se racismo à doutrina do «apartheid» sul-africano ou à repugnância do americano era dar alojamento em hotel de usual clientela branca a indivíduos de cor, mas não é ou foi «racista» a conduta nem de belgas nem mesmo de holandeses nas suas actuais ou antigas, colónias, nem muito menos ainda a de portugueses; e a política indígena da Companhia é essencialmente a clássica e tradicional orientação portuguesa, que considera o negro como um companheiro útil, simpático, de todos os dias, que o incita ao trabalho, evidentemente, mas a quem - e nesta Empresa, como já disse, isto se faz no mais lato grau que comporta uma organização metódica e eficaz de boa produtividade de todos os elementos brancos e negros que a compõem - se proporciona tudo o que dentro dessa organização, tanto em matéria de assistência sanitária e alimentar, de instrução, de educação e, de distracção, é possível proporcionar-lhe. É, em suma, uma espécie de «paternalismo», bem compreendido e largamente exercido, que o negro aprecia, por uma certa «familiaridade» que essa atitude comporta, e que é ainda - continuo a afirmá-lo, -o melhor ponto de partida para ulteriores e mais elevados destinos. (Este conceito da «familiaridade», que ofereço ao estudo e desenvolvimento dos sociólogos, é aquele que, para mim, melhor explica o sucesso do português junto do indígena africano). Entre o «Malanismo» da União da África do Sul e o fabricar mestiços. em série - Freyre seria um homem feliz no dia em que os visse povoando e dominando o Orbe - em certa altura da longa distância que separa essas duas atitudes extremas, esta a posição portuguesa, posição que na Companhia de Diamantes incessantemente se melhora, mas que envolve, também, um postulado inicial, o de que não é necessário, e que e mesmo absolutamente dispensável, que pretos e brancos durmam na mesma cama.

Culturas indígenas. A «destribalização»

Em certa altura da informação e comentário do que viu na área de acção da Companhia de Diamantes, e ainda a propósito da sua atitude para com a população indígena, por ela empregada, Gilberto Freyre toca em certas questões, sobre as quais largamente se tem escrito, e a que eu não poderei deixar de fazer aqui referencia, porque o ilustre escritor, novamente, põe em causa a orientação da Companhia, nessa matéria.

Diz ele, e mais uma vez transcrevo certas das suas frases, para evitar atribuir-lhe ideias que não sejam, exactamente, as suas:

«A tendência da Companhia de Diamantes e das companhias e empresas do seu tipo, que operam na África Portuguesa do mesmo modo que nas outras Africas - talvez seja para reduzir as culturas indígenas a puro material de museu. Os indígenas vivos interessam-lhe quase exclusivamente como elementos de trabalho, tanto melhores quanto mais desenraizados das suas culturas maternas e mecanizados em técnicos, operários e substitutos de animais, de carga. (!) A Proletarização de tais indígenas, a sua segregação em bairros para «trabalhadores indígenas», dentro de comunidades organizadas em pura função desta ou daquela actividade económica, constitui um dos maiores perigos para a gente africana, do ponto de vista social e ao mesmo tempo cultural. Está este perigo na destribalização ou desintegração, demasiadamente rápida, dos grupos indígenas, sem que se verifique a substituição dos seus valores ancestrais por conjuntos de valores -como os cristãos ou os maometanos... que lhe dêem uma nova base de desenvolvimento pessoal a social ». E, mais adiante: «As consequências, desfavoráveis ao indígena, da desintegração da sua cultura são quase inevitáveis sob o impacto do industrialismo capitalista» (já faltava a tentativa de, mais uma vez, se condenar o capitalismo, como se não tivesse sido ele a fonte, a origem, o grande promotor, directo ou indirecto, do progresso do continente africano); «o único meio, não direi de evitá-las, mas de reduzir-lhes os maiores efeitos, seria as grandes empresas darem tanta importância a este aspecto social da sua actividade quanto ao técnico; e fazerem-se orientar em suas relações com os grupos indígenas por antropólogos ... ».

Estas afirmações do nosso visitante mostram, ainda uma vez, o perigo de se escrever sobre matérias que, -embora muito estudadas (quero crê-lo) sobre livros e outra documentação, não foram pessoalmente experimentadas e verificadas pelo contacto directo, in-loco, durante períodos de tempo assaz longos; e também o que pode resultar de fantasista, ou simplesmente imaginativo, de se olharem e apreciarem situações desta espécie apenas por critérios abstractos e segundo princípios preconcebidos e inalteráveis. Já Sã de Miranda aconselhava:

«0 que não experimentares Não -cuides que o sabes bem».

Muito se tem escrito sobre «culturas indígenas»; refiro-me aqui apenas às populações negras ao sul do Sahará, a «Afrique Noire» dos cientistas de Dakar. Existem, de facto, mais ou menos ricas e compreensíveis nos seus valores- materiais e morais, consoante as origens, a capacidade- própria, inata, do seu fundo étnico, «culturas» (por alguma razão se lhes não chamou «civilizações») curiosas e interessantes sob diversos aspectos, simpáticas, mesmo, muitas vezes, e que oferecem ocasião e substância para estudos de feição científica, sempre benvindos, que enriquecem, evidentemente, o conjunto dos conhecimentos humanos, e já por estas razões e conveniências o exame de tais culturas se impõe; mas daí a poder-se afirmar, como se tem feito, que elas poderiam servir de base, de fundamento e aceitáveis (aceitáveis para o mundo civilizado, em formas e manifestações compatíveis com as já existentes nele) desenvolvimentos, e aperfeiçoamentos capazes de vir a constituir outras novas, verdadeiras civilizações, vai uma enorme distância; existe mesmo, um abismo impossível de ultrapassar. Basta reflectir em que tão longe quanto se pode remontar na história dos negros a que nos estamos referindo, se constata tratar-se de culturas estagnadas, sem resistência a influências degradantes, e que só pela acção do branco têm podido conservar-se e por vezes, aperfeiçoar-se. E não nos falem nos «duques» e «marqueses» da chamada «corte do Rei do Congo»., que nunca chegaram a existir com as categorias e a pompa que lhes quiseram dar, nem nos venham com o argumento de que o Zimbaoé e outras, semelhantes edificações da Rodésia -são obra de antigos bantu, pois continua a ser incontestável que elas devem a sua erecção a povos invasores de origem semita pré-islâmica, ou mesmo «galla», e nunca aos antepassados dos machonas ou matebeles de hoje. E é necessário não esquecer que o que presentemente encontramos nas «culturas» indígenas aparece já expurgado, dos seus caracteres , menos aceitáveis, como são os sacrifícios humanos, a antropofagia, o poder absoluto do feiticeiro, as situações de escravidão, elas próprias resultantes, em grande parte, de um estado endémico de contínuas guerras e depredações, a poligamia, em parte, com a consequente servidão da mulher, e,outros ainda; mas, mesmo depuradas, essas culturas revelam-se pobres de elementos aproveitáveis, salvo no relativo a certas artes, como a música, a pintura rupestre, a fundição em bronze (em área muito restrita), a escultura, designadamente em madeira, que neste momento é alvo de justificada curiosidade e interesse mas que, nem por isso deixa de se revestir de uma feição caricatural e infantil que logo revela o seu primitivismo, o qual poderia talvez evolucionar no sentido das modernas produções chamadas «abstractas», mas sem que, a meu ver, dessa eventual evolução viesse a resultar perfeição ou enriquecimento dos valores essenciais das artes referidas.

Não cabe aqui o aprofundar este curiosíssimo assunto, das «culturas» negras, mas quando -se lêem e meditam alguns dos estudos que o têm abordado, «La Philosophie Bantoue», do holandês Tempels, por exemplo, são tão estranhas, confusas e complexas as noções, laboriosamente expostas que esses estudos nos revelam, que perguntamos a nós próprios se essas mesmas deficiências (chamemos-lhe assim) não bastarão para explicar a incapacidade evolutiva dessas culturas" indígenas, antes do contacto com o branco e da influência alteradora nelas produzida.

Tudo o que vem dito visa afirmar a opinião de que, ao contrario do que outros têm avançado, não se vê que seja possível alimentar a esperança, nem fundamentar a doutrina, de que a raça negra seja capaz de evoluir e desenvolver as suas culturas privativas segundo direcções e objectivos que lhe fossem próprios, a ponto de virem a constituir verdadeiras, embora diferentes, civilizações. E será mesmo essa impossibilidade que tornará impraticável a permanência do «apartheid» sul-africano, se acaso, o que não é provável, pretenderem mantê-lo tão rigorosamente como tem sido proclamado. Daqui se conclui, também, que o negro, para se poder aperfeiçoar e melhorar as condições materiais e morais da sua vida, terá de abandonar grande parte do que constituiu as suas culturas próprias e de adoptar os valores da nossa civilização, adaptando-se, dentro dela, às funções e obrigações para que se demonstre apto e capaz, e que mais necessárias e proveitosas possam mostrar-se ao progresso geral da comunidade de que passou a fazer parte.

E aqui retomamos o fio das considerações do Sr. Gilberto Freyre, que melhor poderíamos denominar lamentações, porque versam fenómenos que poderão ser atenuados, na sua extensão e efeitos, mas que é impossível eliminar, por serem, eles próprios, a condição sine qua non do progresso geral do território e dos indígenas que o habitam, e cuja prosperidade está dependente, fatalmente, desse progresso.

0 «white man's burden»

É um truísmo o afirmar que a exploração dos recursos naturais do continente africano se impõe, como um dever imperativo (o «white man's burden» da época brilhante do imperialismo britânico) para com os seus habitantes, às nações que assumiram a responsabilidade de administrar e civilizar esse continente, e para com a comunidade das outras nações, hoje ligadas por correntes de interpenetração económica, que cada vez mais se acentuam. Perante tais obrigações, é evidente que, sempre que elas envolvam o emprego da mão-de-obra indígena, - e, entre trópicos, só muito mais tarde deixará de ser necessária - ela terá de ser utilizada, e por vezes, como sucede com a Companhia de Diamantes, em termos de número e de continuidade de esforço, de facto muito pronunciados. Diz-nos Gilberto Freyre que «o impacto do industrialismo capitalista» há-de produzir inevitavelmente a desintegração do. indígena das suas culturas. Sem dúvida, e não é preciso, para que tal suceda, que se produzam «impactos», nem amarrar, novamente, o capitalismo ao pelourinho dos grandes criminosos; mesmo que se reconhecesse a vantagem de deixar o indígena entregue ao gozo da sua cultura própria, na qual, em matéria de alimentação, tanta vez figura a comer Iagartas e ratos, para fugir a cultivar a terra, esse estado de beatitude não poderia subsistir porque o que hoje se chama a «destribalização» se inicia logo que o preto toma contacto com o branco, e vai-se acentuando à medida que, por efeito desse contacto, ele obtém recursos e outras vantagens que a simples existência em tribo lhe não pode dar. Que forte ligação poderá manter ainda com o meio tribal e suas hierarquias e crenças, o indígena que uma vez foi objecto de uma grave operação, em um imponente hospital, e tratado por um verdadeiro cirurgião, rodeado de um cerimonial e aparato, que estendido na «marquesa», ele ainda pôde observar que era muito mais impressionante que o das «circuncisões» da sua terra, - e se viu curado ao cabo de pouco tempo, quando outros dos seus, conterrâneos em circunstâncias análogas e dele conhecidas, morreram, não obstante todos os remédios que o curandeiro nativo lhes proporcionou?

A destribalização é, pois, fatal e pode mesmo dizer-se que ela é necessária à integração do indígena no novo meio em que foi viver e actuar, e ao pleno aproveitamento de tudo o que se lhe vai ensinando ou ele aprendeu, por si próprio, se é inteligente. É, prejudicial, e mesmo perigoso, que essa destribalização se opere com excessiva rapidez, e em massa? Sem dúvida, e por isso sempre discordámos da transplantação de populações dos lugares de origem para os de trabalho, da concentração delas em «acampamentos», e preferimos, não obstante pesada despesa, o ir buscar os trabalhadores e restitui-los às terras de onde provêm, terminados os contratos; e por isso ainda que entendemos, ser preferível deixá-los habitar em casas de tipo indígena melhorado, a forçá-los a permanecer em construções de material e formas mais avançadas, que eles não apreciam e em relação as quais não e tão fácil reproduzir certas condições de isolamento e intimidade familiar, de conservação de usos e costumes próprios, e de aparência, que faziam parte integrante das suas vidas. Que as Empresas do tipo da nossa «têm talvez tendência para reduzir as culturas indígenas a puro material de museu» diz Freyre; contestamos a afirmação: não somos nós que as reduzimos, elas é que, fatalmente, tendem a desaparecer, e nós, Companhia, constatando esse fenómeno, fazemos o possível para o atenuar e para conservar, dessas culturas em via de desaparecimento, tudo o que possa concorrer para não serem definitivamente esquecidas pelos próprios que as produziram, e se não percam, inteiramente, para a Ciência, algumas das suas características. A criação e sucessivo engrandecimento do Museu do Dundo e a recolha do folclore musical dos povos da região não têm outros objectivos.

«Os indígenas vivos interessam-lhes quase exclusivamente como elementos de trabalho... mecanizados em técnicos, operários e substitutos de animais de carga», avança ainda o visitante. Para não o confundir, abstenho-me de lhe perguntar o que vem fazer ali a restrição aos «vivos», e quanto é descabida a referência ao aproveitamento do indígena como carregador, já completamente banido. Quanto ao resto das acusações, creio ter já mostrado, em outro lugar desta nota, que, no relativo à Companhia de Diamantes, não procedem, e vêm provar, apenas, falta de compreensão das situações de facto, inseparáveis da exploração dos recursos do território africano, e de experiência pessoal e directa dos casos que o escritor pretende apreciar. Acha ele mal «que se mecanizem», segundo a sua expressão, os indígenas em técnicos e operários; é que nunca teve ocasião de medir o enorme valor que representa, para o próprio indígena e para uma exploração industrial, a passagem de «preto ordinário» (segundo a classificação de um meu moleque: personagem importante que, ao domingo, saia com o meu chapéu e as minhas luvas) a bom serralheiro, bom ferreiro, bom carpinteiro; e, diríamos, também, bom contabilista, bom enfermeiro, bom medico, mesmo. Um preto que sabe manobrar um camion basculante de 22 toneladas, que consegue fazer trabalhar, sem avarias, as potentes escavadoras que estão na base das grandes explorações mineiras, que se ajeita com as complicações dos modernos motores Diesel ou de uma sonda de exploração geológica, não tem preço e, ligando essa competência profissional a uma, mesmo rudimentar cultura geral, tem o seu futuro garantido. E é sobretudo nessa direcção que deve ser promovida a evolução do indígena angolano, para o bem geral da comunidade, que é, também, o seu próprio.

Faz notar Gilberto Freyre que, a dar-se a destribalização, haveria que substituir os «valores ancestrais» (designação de excessiva pompa) por outros conjuntos de valores que dessem ao indígena «uma nova base de desenvolvimento pessoal e social». De acordo; essa base é-lhe dada, precisamente, pelo seu ingresso em a nossa civilização, de que passou a ser utilíssimo elemento; materialmente, pelo trabalho por ele desenvolvido e os proventos que desse trabalho lhe advém, moral e socialmente, pela doutrina e práticas da moral e da religião cristã. E é por essa razão que a Companhia de Diamantes mantém capelães privativos, ergue capelas, multiplica as catequeses e apoia e auxilia, ampla e fortemente, não só na área da sua actividade mas também em toda a Província, e na própria Metrópole, a propaganda religiosa e a acção do catolicismo missionário.

Ainda a «miscegenação»

Em certa altura desta Nota dissemos que Gilberto Freyre, ao deparar-se-lhe, a «civilização» (ele próprio o reconhece) a recebe «de princípio maravilhado, mas logo depois aborrecido, quase zangado». De facto, observando, de perto, a sua atitude desde que entrou na zona da actividade da Companhia, impõe-se-nos a sensação de que ele se acha contrafeito, não está à vontade, falta-lhe qualquer coisa. Que lhe sucedeu, Santo Deus?

0 que lhe sucedeu foi que o observado nas explorações da Companhia não correspondeu ao que ele esperava, ou melhor, ao que desejava encontrar. Como todo o bom ensaísta que, depois de estudados certos fenómenos, circunstâncias ou situações, supôs ter descoberto a lei geral que os rege e delineou o âmbito dentro do qual tais elementos deveriam caber, estar à vontade, correlacionar-se fácil e logicamente, encontra alguns que se lhe não ajustam e rebentam os quadros pré-estabelecidos, dentro dos quais o autor não acha maneira de os encaixar!

Freyre intitulou o seu livro «Aventura e Rotina» e, mais ou menos naturalmente, tudo aquilo que ele vinha observando nas diversas partes do Ultramar Português que percorrera, cabia dentro do titulo, mas eis que, chegado à Lunda, não encontra nem Aventura, nem Rotina. Não encontra a aventura porque é de reconhecer que, descoberto o diamante no território belga, adjacente ao português, o facto de eles serem apenas parte da mesma bacia hidrográfica, de apresentarem o mesmo «facies» físico e a mesma aparente formação geológica, logo indicava que deste lado, também, como do outro, o diamante ia aparecer, mais tarde ou mais cedo; e não pôde encontrar a rotina, isto é, uma situação de paragem ou de imobilização em processos rudimentares, ou atrasados, de realizar a exploração do que se descobrira, porque, ele próprio o reconhece, a Companhia de Diamantes «mostra-se tecnicamente arrojada».

Primeira decepção, para ele muito desagradável. Mas o pior foi ainda que, tendo instituído a «mise--genação» em base fundamental do seu conceito do «luso-tropicalismo», tendo vindo a cantar-lhe altissonantes hinos, ao longo de centenas de paginas, aqui, na vasta arca da actividade da Companhia, à parte a presença de alguns «assimilados», trabalhando para ela em funções, necessárias e bem desempenhadas, sem dúvida, mas que não alteram o aspecto do conjunto da população, ele não só não observou exemplares de «miscegenaçao», mas notou mesmo que a orientação adoptada, e cuidadosamente mantida, sob o ponto de vista social, visava a evitar essa «miscegenação», opondo-lhe as facilidades concedidas (e cada vez mais aumentadas e aperfeiçoadas) aos nossos empregados para se fazerem acompanhar das suas senhoras e dos seus filhos menores; e proporcionando aos já muito numerosos representantes do sexo feminino, que vieram auxiliar-nos em os nossos trabalhos e suavizar, digamos mesmo, encantar, com a sua presença, a nossa existência e o peso do serviço diário, condições de vida domestica, de vestuário e de adorno, de relações sociais, de diversões e de outra espécie, que lhes tornam agradável e fácil a sua adaptação a um clima diferente do de origem e um ambiente geral, que, para muitas mulheres, era ainda estranho e inspirava certos medos e apreensões.

Falhou, pois, a Gilberto Freyre, a possibilidade de encontrar, na área da actividade da Companhia, a aplicação da sua teoria da «miscegenação», que, em mais de um lugar do seu livro, ele pretende fazer-nos aceitar como condição indispensável do estabelecimento permanente do europeu em África; mas se isso sucedeu foi, precisamente, por ele querer dar a esse fenómeno aquele carácter de generalidade, de indispensabilidade, que, na realidade, não pode assumir, nem é possível reconhecer como fundamento e base inevitável de desenvolvimento étnico, senão no Brasil e em Cabo Verde, para só falarmos do continente africano ou de países de inicial colonização portuguesa. É evidente que a «miscegenação» - abrangendo agora por este vocábulo todas as relações do colonizador com populações locais, atrasadas, desde o simples primeiro contacto até ao acto sexual e seus produtos, foi, sem dúvida, e ao Brasil me refiro agora, mais especialmente, condição imprescindível e inevitável da adaptação ao novo meio e da primeira instalação no território descoberto. A instalação inicial permitiu e facilitou a penetração; pela penetração se realizou a ocupação, à ocupação se seguiu a exploração, mas essa sequência de estados sucessivos, que sem a «miscegenaçao». não chegaria, a efectuar-se, pouco mais deu, porque a exploração não passou da rotina, não produziu processos novos e mais avançados da exploração da terra e dos seus recursos. Para avançar nesse caminho, como em outros, o cruzamento do colonizador com as raças atrasadas, autóctones ou importadas, não bastava, era necessária a presença e a acção de raças de proveniência exterior, mais avançadas em nível de vida, em riqueza de conhecimentos e em civilização geral do que o fundo mestiço por aquela forma criado; e foi isto, de facto, o que aconteceu e está sucedendo no Brasil. Estamos em presença de um processo de formação étnica, curiosíssimo, e que continuará merecendo atenta observação e estudo, mas talvez se possa desde já afirmar que esse formidável melting pot que é o Brasil de hoje, não chegará a produzir uma cristalização étnica, estável e definitiva, prejudicada, como ela o é, pelo extensíssimo desenvolvimento do pais em latitude, ou seja, em diversidade de condições climatéricas e perturbada pela contínua afluência de elementos de raças muito dispares, mas necessárias, alguns dos quais, inassimiláveis, ou de difícil integração.

0 fundo mestiço criado, ao longo dos séculos, pelo contacto do português com o negro originário de Angola, da Costa da Mina ou de Moçambique, e com o ameríndeo poderá ser, como diz um autor brasileiro, Pedro Calmon, (se bem me lembro) o substratum, o fundo, o casco sem o qual o progresso do Brasil seria impossível, (cito de memória), mas, paralelamente, se pode afirmar, também, que um fundo dessa natureza, se condenado a procriar por único cruzamento com elementos de cultura inferior, teria de acabar pela, estagnação e introversão. Quer isto dizer que do fundo mestiço não brotem, como certas formosas orquídeas afri

canas, das infindáveis «chanas», mentalidades eminentes em certos ramos do saber humano, homens de Estado, cientistas, romancistas e poetas notáveis? Surgem, mas por excepção. Não e este o lugar de citar nomes, mas já que falei em poetas, recordo Bilac que soube, com o seu «Caçador de Esmeraldas,», produzir em manifestação verdadeiramente genial, a coisa mais bela que, a meu ver, no género épico, se tem lido em língua portuguesa, logo a seguir a Camões, reconhecidas as diferenças do momento histórico e da amplitude da matéria versada.

0 seu: «À frente dos peões filhos da rude mata.

Fernão Dias Pais Lemos entrou pelo sertão».

reboa como um clarim tocando à carga.

<<Tu cantaras na voz dos sinos, nas charruas,

No esto da multidão, no tumultuar das ruas,

No clamor do trabalho e nos hymnos da paz,

E, subjugando, o olvido, através das idades,

Violador de sertões, plantador de cidades,

Dentro do coração da pátria viverás.>

É toda uma portentosa Nação que nasce, desponta e desabrocha da nebulosa originaria! Que pujante e divina inspiração desceu, então, sobre o Poeta!

Que se não esqueçam do genial Bilac, no próximo Congresso de S. Paulo.

«Y de Ia nina quê?»

Perguntava-se em uma «zarzuela» do meu tempo. E quanto a Angola, em geral, que pensa o autor desta Nota, perguntarão os leitores que porventura o tenham acompanhado até aqui. Ora é precisamente com vista ao que eu, considero dever ser o destino desta grande parcela do território português, que eu tanto tenho insistido sobre o tema da miscegenação, e combatido a feição de indispensabilidade que Gilberto Freyre lhe atribuiu na colonização portuguesa em África. Entendo eu que, embora o cruzamento do português com a raça preta indígena se tenha produzido em Angola, como era natural, em tempos antigos, e se produza ainda hoje, mas -em muito menor grau, esse cruzamento, essa miscegenação, não é um elemento indispensável na preparação do futuro da Província, e convém até contrariá-la por disposições adequadas, entre as quais tem lugar predominante, como base de toda a nossa acção futura nela, a colonização pelos diversos processos que poderão ser empregados, em escala tão ampla quanto for sendo possível, com elementos nacionais brancos, de ambos os sexos. Não se planeia o futuro de um território ultramarino com a mesma facilidade com que um bom arquitecto pode traçar o projecto de uma casa ou outra construção, por mais variados e complexos que sejam os fins a que a destinemos; sei-o bem, mas é sempre possível, e começa a ser instante, em face do próprio desenvolvimento, ou progresso material, de que Angola tem beneficiado, por efeito de circunstâncias diversas, e perante certas doutrinas, a meu ver, erradas, que outros têm defendido em matéria de colonização africana, a necessidade, em relação a ela, de um plano, de uma orientação básica, fundamental, inalterável, que presida a todas as disposições, oficiais ou particulares, que a seu respeito hajam de ser adoptadas. Temos trabalhado muito em Angola, a obra de fomento nela realizada ou para ela planeada é vasta e de futuros profundos efeitos na sua economia, e no seu povoamento, mas rara será a pessoa, oficial ou particular, que perante esta simples, pergunta: «que vamos nós fazer de Angola, qual o futuro que a seu respeito devemos ter em vista e preparar-lhe», se não mostre surpreendida pela pergunta e perplexa no que há-de responder.

Tem-se dito, multas vezes: «Façamos de Angola um novo Brasil». É uma «frase feita», como muitas outras, frase que nos ocorre naturalmente, por efeito da semelhança de posição geográfica e de clima, da natureza da acção colonizadora, que nesses dois territórios temos exercido, da fama de produtividade e de riqueza que anda ligada à grande Nação luso-americana, dos benefícios que os nossos naturais têm recolhido do trabalho que nela desenvolveram; mas tudo isso não torna verosímil nem de possível realização a ideia em tal frase contida. Angola não é um Brasil nem pode nem conviria, se pudesse, que viesse a sê-lo. Angola não se compara, nem em extensão territorial nem em riqueza natural, como Brasil, diminuída como o é, quanto a possibilidades de aproveitamento imediato, ou facilmente realizável, pela feição de deserto que apresenta uma terça parte do seu território, aproximadamente. A grandeza territorial do Brasil, a abundância e a variedade das suas riquezas naturais, a sua possível e provável participação ou contribuição em uma nova guerra mundial, reveste-o de uma categoria e de uma importância capital, que não é possível atribuir a Angola, embora, também, sob esse ponto de vista, ela tenha um papel, talvez importante, a desempenhar. A mesma disparidade de situação pode observar-se, por exemplo, sob o ponto de vista etnográfico: o Brasil tem de contar, para a sua vida normal e progresso futuro, como vimos, com um amplo e espesso fundo mestiço, que em Angola não existe em proporções apreciáveis nem é já provável, digamos mesmo, possível, que venha a avolumar-se por forma a influir no futuro da Província. 0 Brasil poderá preferir, no relativo à imigração, a de portugueses, mas, por razões diversas, não poderá impedir a de gente de outras origens, ao passo que a Angola será sempre possível reforçar, com elementos da Metrópole, o fundo de população nacional pura que nela já hoje prepondera, sem necessidade do recurso à imigração estranha, salvo quanto à prestação de serviços por técnicos de outros países, que, durante muito tempo, nos hão-de ser ainda indispensáveis. e utilíssimos. Ponhamos de lado, pois, definitivamente, a ideia de pautarmos, pelo modelo brasileiro, a preparação do futuro de Angola.

A meu ver, esse futuro, o destino que devemos preparar-lhe, é precisamente o de ela vir a ser uma extensão étnica, política e, de certa maneira, económica do Portugal Continental o predomínio, nos orgãos provinciais, do Governo e da administração de elementos nacionais de raça branca, o que não impedira a colaboração, de nativos, porque, neste particular, é ainda a fórmula de Cecil Rhodes:

«Equal rights for all civilized men»,

a única justa e sensata, que aparece, sobrevivendo e dominando toda essa confusa multidão de fantasiosas teorias com que actualmente e a tal respeito pretendem submergir-nos. É fácil de reconhecer que, das nossas duas grandes províncias africanas só em Angola será possível realizar o objectivo, essencialmente português e branco, que para Angola se recomenda. São profundamente diferentes da outra na sua situação geográfica, na natureza da sua população, no grau das relações com a Mãe Pátria, e com as colónias vizinhas -Angola e Moçambique. Como, não há muito, fez notar o professor Dr.. Marcelo Caetano, Angola é uma região «integrada no mundo atlântico». Moçambique «pertence à zona de influência do Oceano indico». Notar-se-á ainda que Moçambique, em relações com o mundo árabe e chinês desde remota antiguidade (Duyvendak, «China's discovery of Africa») - Sofala era já, no século X, o extremo da navegação árabe para o Sul (Hourani, «Arab seafaring in the Indian Ocean») - está desde esses tempos ligado à índia e ao Oriente por correntes comerciais e étnicas, que coisa alguma poderá sustar ou mesmo só modificar, e a sua população apresenta, de facto, como o fez notar, com delícia e, desta vez, com razão, Gilberto Freyre, exemplares «de, lindas mestiças jovens, de delicados subprodutos, que resultam em cores de carne e formas de mulheres, que só neste ambiente luso-tropicaI se teriam desenvolvido», os quais, por provirem de combinações de varias raças, continuarão a constituir, na população geral da Província um poderoso factor de miscegenação e proliferação mestiça.

Também a continuidade das suas fronteiras com as de colónias vizinhas de acentuada actividade político-economica, e o facto de elas se servirem, para as suas relações com o exterior, de portos da costa portuguesa, são causa de uma endosmose de influencias, de usos, costumes e cultura que hão-de subsistir e acentuar-se ainda no futuro, senão eliminado pelo menos ocupando um lugar que caberia em outras circunstâncias, a influências de origem nacional.

Angola, pelo contrario, é um território que, exceptuadas as fracas relações do nosso Congo com a margem belga fronteira; do lado da Lunda, o contacto, especialmente técnico, do Dundo com Tshikapa, e, mais abaixo, o tráfego da via férrea do Lobito a Teixeira de Sousa, que serve, em parte, a colónia belga - pode dizer-se que vive isolada, separada, como está, das colónias limítrofes por vastas áreas desérticas ou de fraco povoamento. As suas ligações permanentes estão todas orientadas para e da Metrópole, em condições excepcionais para dela receber continuadamente, e em primeira mão, todos os elementos de vida e de progresso, todas as influencias que a Metrópole queira, e saiba, transmitir-lhe.

Não pretendo, com o que vem dito, diminuir o valor do muito que a iniciativa e o esforço nacionais têm produzido em Moçambique, onde me formei e a que tanto devo, nem a devoção patriótica dos seus habitantes, que é incontestável, mas apenas acentuar que, por efeito de circunstâncias que ocorrem na costa oriental, e sobre as quais nenhuma ou fraca influência pode pela Metrópole ser exercida, é, incontestavelmente, só a Angola, no plano geral do aproveitamento e valorização do que ainda possuímos no Ultramar, que poderá caber a grandiosa função de assegurar, por sobre o oceano, a continuidade e a persistência da estrutura étnica e cultural, da política, da economia e, em suma, do génio nacional no máximo do seu carácter e pureza.

A destropicalização do continente africano

Muitos pensarão que um programa tão radical de povoamento e de genuína acção e preponderância do português de raça branca em Angola, como o que, sumàriamente, acabo de enunciar, é de impossível realização. Não o é. Dizia, anos atrás, um tratadista de questões sul-africanas que «uma, sociedade que não tenha por base ou fundamento o esforço e trabalho físico nunca poderá manter o seu vigor; e que nenhuma sociedade poderá subsistir, por longo tempo, pelo trabalho de outra sem desenvolver em si as características de um fungus». É esta uma afirmação absolutamente verdadeira e que condiciona o futuro e a perenidade da colonização genuinamente europeia em terras de Africa. Sei bem que não é possível realiza-Ia, integralmente, desde já, e ate que só o esforço e aplicação de sucessivas gerações nos poderão conduzir à situação final desejada; mas é por tal conceito e pelo objectivo nele contido que deverá orientar-se a nossa acção.

- No espírito de muitos, ao apreciar o que vem dito, predominará e, velho receio da feroz resistência do Continente africano - aquela Africa da qual um escritor francês dizia que «la, Terre ne serait pas ce qu'elle est si elle n'avait ce carreau de feu sur le ventre» - à penetração e ocupação pelo branco. Essa ideia, esse medo, a apreciação tradicional, que associava a qualificação de «mistério» a tudo o que com a África se relacionava, mostram-se já acentuadamente diminuídos. Estamos longe das épocas do primeiro contacto do europeu com o chamado «Continente negro». Hoje faz-nos sorrir aquela objurgação que um historiador árabe atribui ao Kalifa Omar (século sétimo), quando lhe pediam autorização para continuar as invasões do Norte de Ãfrica: «Esse pais não deve ser chamado Ifrikia, deveria antes ter o nome, de «pérfida terra longínqua>; proíbo que se aproximem dela ou que preparem uma outra expedição, enquanto a água das minhas pálpebras humedecer os meus olhos».

Relendo o que escrevi, em 1910, sobre a oposição e acirrada defesa que ao invasor estava opondo esse continente, encontro, na síntese que do assunto tentei fazer, frases como as que se seguem, e que me permito reproduzir pela comparação e contraste, que depois me proponho pôr em, relevo:

«Umas vezes é a inaptidão absoluta do solo, minado pela formiga branca, salgado, absolutamente seco, ou privado dos elementos químicos necessários; ou a inaptidão parcial para a cultura em larga escala de certos géneros ricos, como, em geral, tem sucedido, com a implantação das espécies arnericanas de borracha arbórea, ou de cacau, que continua limitada a terrenos e climas privilegiados. Outras vezes é a falta de comunicações, especialmente sensível em um continente cujos rios são, no geral, inavegáveis e sujeitos a regime, torrencial as terras interceptadas por áreas despovoadas, faltas de água, ou por florestas impenetráveis; continente onde as estradas se desfazem com as chuvas ou são invadidas pela vegetação, o gado é perseguido pela tsé-tsé e dizimado por numerosas doenças, tão numerosas como difíceis de extinguir, e o negro continua a ser o animal de carga usualmente empregado»... «Parece que o continente negro, na resistência que opõe o solo a uma cultura regular e lucrativa, está esgotando os últimos recursos da sua secular rebeldia à invasão do branco. Afugentou-o das suas costas pelas lendas tenebrosas que envolviam os mares que as banhavam, deteve-o, durante muito tempo, confinado à margem, em feitorias, sobre portos assoreados ou deltas insalubres , pela inavegabilidade dos rios, pelas cataratas que os cortavam, pelos desertos, pelas florestas, pelas elevações bruscas em planaltos, pela hostilidade do indígena. Depois de penetrado, recusou-se ainda, tenazmente, em guerras cruentas, no massacre dos exploradores isolados, na inabitabilidade das terras pela malária; ao sentir-se ocupado em permanência, arruinou o organismo do invasor pela anemia, ou exacerbou-lhe o carácter em delírios de domínio e de grandeza, esterilizou-lhe as mulheres, falseou-lhe a descendência pelo cruzamento com o indígena, matou-lhe os cavalos, fê-lo atraiçoar pelos guias, pelos carregadores ou moleques, enferrujou-lhe os instrumentos, e, onde o encontrou isolado, assimílou-o a si, cafrealizando-o».

0 quadro assim esboçado de como se apresentava a resistência da Africa à penetração e ocupação pelo branco, pode, agora, parecer exagerado, mas não o era, 50 anos atrás; se, presentemente, pode causar surpresa e espanto aos recém-chegadas é porque, no intervalo, se continuou manifestando, e cada vez mais acentuadamente, o fenómeno, para mim absolutamente reconhecível e, de resto, fácil de explicar, (para alguma -coisa há-de servir o ter podido conhecer de visu e estudar duas conjunturas africanas com mais de meio século de intervalo), a que eu chamo a «destropicalização do continente africano>.

Esse fenómeno, muito complexo, no qual concorrem factores dos mais variados, tem, quanto a mim, por núcleo essencial, a «humanização», chamemos-lhe assim, das condições climatéricas da Africa, que não chegaria, talvez, a demonstrar-se por números de estatísticas, por falta delas ou por impossibilidade de efectuar comparações, mas que me parece indiscutível, e tem sido verificado, aqui e ali, em ocasiões as mais diversas, por indivíduos de varias condições, embora sem lhe ligarem maior importância, nem pretenderem formular conclusões a tal respeito. Todos os que têm permanecido em Africa longos períodos de tempo, ou a têm visitado frequentes vezes, terão notado que, de uma maneira geral, o calor já não aperta como em tempos passados; se, dantes, a lembrança do frio em Africa andava ligada somente à das noites de certa estação, hoje, essa ideia é usual, comum, já não causa estranheza. Continua, sem dúvida, (refiro-me mais especialmente à parte do continente ao Sul do Sahará) a poder observar-se a sucessão de estações secas e estações de chuvas, mas não só os limites de umas e outras perderam bastante, da sua estabilidade, mas até, e sem embargo de certas cheias fluviais que os jornais logo acusam, ou da noticia de que em uma ou outra região, se observaram pesadas chuvas, se tem, não obstante, a impressão de que, em conjunto, a terra está recebendo menores quantidades de água, o que, se pode causar inconvenientes, diminui, por outro lado, quanto à saúde dos habitantes, as causas usuais de morbilidade.

É possível que essas já sensíveis alterações climáticas venham, com o tempo, a produzir outras, consequentes, nas culturas ou em certos aspectos económicos da exploração (um agricultor de Angola dizia-me, há pouco: «com estas irregularidades de clima, que vamos nós fazer?»», mas, por outro lado, conduzem também, só por si, a uma maior habitabilidade da terra, a qual aparece agora muito facilitada já pelas variadas, cada vez mais numerosas, e uteis, descobertas científicas no campo da Medicina e da Cirurgia. Sou do tempo em que se conhecia somente o quinino como remédio contra as chamadas «febres de Africa»; presentemente, numerosos outros medicamentos se aplicam com o mesmo objectivo, e o indígena, acompanhando o movimento, pede que lhos dêem em injecções. A doença do sono, nesse tempo, grassava livremente, e branco ou negro por ela atingido estava condenado; hoje, tratamentos adequados asseguram a vida a todos aqueles em quem a doença foi descoberta a tempo de ser combatida e vencida, e é-o sempre mercê da formação de missões admiravelmente, dirigidas e equipadas que a esse objectivo se dedicam. Antigamente, os recursos de farmácia dos que trabalhavam longe dos centros civilizados resumiam-se ao quinino, iodo e sulfato de sódio, com as ilimitadas aplicações de todos conhecidas; hoje, os que trabalham naquelas condições levam consigo farmácias de variada e adequada composição, na qual os antibióticos figuram como panaceia contra todos os males e, por efeito da larga e profunda ocupação do Continente e da facilidade dos meios de comunicação, raro será o doente que, gravemente afectado, não possa chamar o facultativo, pelo seu posto de radiotelefonia, ou fazer-se transportar por automóvel ao posto médico mais próximo.

Se notarmos, também que o fabrico de artigos de equipamento se desenvolveu e aperfeiçoou largamente, produzindo verdadeiras maravilhas de utilidade, de leveza, de resistência e de facilidade de transporte; que um branco, internado em Africa, já hoje não trabalha sem a companhia de um frigorífico, de um posto radiotelefónico, e de um grupo electrogénio para iluminar o seu acampamento; que a frequência e a rapidez dos modernos sistemas de comunicação permite a indivíduos a grande distancia da costa incluir na sua alimentação o peixe fresco e as frutas da Europa ou do Cabo; que a velha e simplória indumentária colonial do branco, baseada na camisola de lã, que o nosso inseparável companheiro, o Chernowitz, recomendava, dever cobrir bem o ventre, e no algodão branco, se modificou para mais leve, procurando formas e aparências de elegância à europeia, para o que muito contribuiu a invenção dos tecidos «fresco» e «palm beach» para os homens. e dos do género «tobralco> para as mulheres; que o próprio capacete colonial, que eu ainda vi usar-se sob a forma de uma construção de três andares com intervalos circulares para ventilação, cobrindo quase o rosto do seu portador, depois de evolucionar em formas cada vez mais portáteis, já hoje é considerado por muitos como um objecto incómodo, difícil de acondicionar, facilmente substituível por feltros leves e dobráveis; se constatarmos que, em virtude de todos esses melhoramentos nas condições da existência e permanência em terras de África, a vinda e coabitação da mulher com o seu marido, ou parentes, se tornou possível, fácil e desejada por todos - poderemos concluir que, mesmo, somente, no relativo à habitabilidade do Continente, se operou uma transformação radical, que continua a processar-se e sempre para melhor, devido as incessantes descobertas da ciência, em vésperas mesmo, talvez, de uma verdadeira revolução, emergente, porventura, das previstas aplicações da energia nuclear a objectivos e ocupações pacíficas.

Sob muitos outros pontos de vista se poderia constatar a entrega ou rendição desta outrora indomável Africa ao domínio da civilização europeia. Todos se lembram dos vastos espaços em branco que antes apresentavam as cartas do continente africano. Se não se inscrevia neles o clássico «hic sunt leones», é porque, já por esse tempo, os leões não metiam medo a ninguém, mercê do progresso realizado no fabrico de poderosas armas de caça grossa e do incremento do espírito turista, para o qual a Africa tanto tem concorrido. Não há já espaços em branco porque todos eles foram percorridos de lés a lés, conhecidos e estudados em recantos anteriormente defendidos por lendas e tradições de profundo mistério e receio. Os próprios desertos se entregaram: 0 Sahará deixou ver que não era só areia, que continha regiões montanhosas, reveladoras, para mais, de antigas e curiosíssimas culturas. Publicou-se, há pouco, um livro, de autor feminino, intitulado «Vacances au Hoggar», que começa por estas espirituosas considerações postas na boca de um camelo: «-Zut! On annonce encore des touristes! Plus moyen de ruminer en paix dans le Hoggar. Du temps de Thais, s'il faut en croire Anatole France, le désert était peuplé d'anachorètes. Si cela continue, il sera bientôt encombré de touristes et l'on adaptera des taximètres sur nos bosses»! No Sul do continente, o Kalahari, em relação ao qual não foram poucos os projectos de irrigação, recomeça, presentemente, a atrair, de novo, as atenções do Governo local e ainda há pouco foi publicado um interessante relatório da missão oficial encarregada de averiguar das possibilidades de desenvolvimento económico, da sua parte ocidental. Houve tempo em que a ligação Cabo-Cairo, que tanta discussão provocou, era considerada uma utopia; hoje o Continente e percorrido com facilidade em todos os sentidos, realizam-se, por sobre ele, viagens arrojadas e aventurosas em veículos impróprios, sem auxílios nem apoios, que tempos atrás fariam qualificar de doidos quem pretendesse efectuá-las. Se olharmos para a rede completa dos percursos previstos pelas diversas companhias de transportes aéreos com termo ou escala no continente africano, teremos a surpresa de estar contemplando uma tela de aranha de malhas apertadas.

A terra negou-se, durante longo tempo, a deixar-se aproveitar, para ,o que muito concorria a sua geral pobreza, e, quando trabalhada, a quantidade e variedade de insectos e de doenças de várias origens, que ,impediam certas culturas ou diminuíam a sua produtividade. Hoje, embora surjam ainda, de vez em quando, «pests» antes desconhecidas e de dificil investigação e combate, como não há muito sucedeu ao cacau da Costa do Ouro, e ao cravo de Zanzibar, e estudo científico dos solos e da sua possível correcção e aproveitamento, a irrigação, os estrumes e os adubos químicos, fizeram desaparecer as impossibilidades anteriores, e permitem tentativas e resultados antes considerados irrealizáveis. Quem nos diria a nós, os da Diamang, que viríamos um dia a utilizar «superfosfatos» para tornar produtivos solos que os geólogos classificam desprezivelmente de «Kalahari sands»? E, no relativo ao aproveitamento em Africa daqueles animais que têm acompanhado o homem no decurso da sua vida milenária, e que tão úteis lhe têm sido, quem me diria a mim que, em regiões onde sessenta anos atrás, se não podia imaginar a existência de um boi, haviam de viver hoje e reproduzir-se normalmente manadas que, só para uma das empresas agrícolas instaladas nessa região, sobem a 14.000 cabeças?

Não irei mais longe na comparação de duas conjunturas separadas por mais de meio século de intervalo. Seria ocioso, por que todos os que a estes assuntos se dedicam se devem ter apercebido das profundas alterações que as separam. Acrescentarei, apenas, que no complexo de «destropicalização», que enunciei, entra, como factor de grande efeito, o psicológico. A ideia da «costa d'Ãffica» desapareceu. A Africa já não é hoje, para ninguém, mormente para o português que com ela conviveu durante séculos, um lugar de degredo; pelo contrário, em face das dificuldades e incertezas, cada vez mais acentuadas, da hora presente, ela é uma esperança, o anseio por uma vida mais ampla, mais livre, mais fácil, mais produtiva. Pouco a pouco a vida da Metrópole e dos que a habitam e a do Ultramar se vão entretecendo cada vez mais apertadamente: rara é a família portuguesa que não tenha tido, que não tenha, ou que não deseje vir a ter, trabalhando em Africa, um ou mais dos seus membros. Esses factos, que, durante muito tempo, se revestiam de uma feição de excepção ou de anormalidade, perderam-na, passaram a ser comuns, usuais, naturais. Que distinção subsistirá, por exemplo, no espírito do homem de negócios, que, em menos de 15 dias, foi a Angola e dela voltou, tendo tratado ali, descansadamente, do que lá o levara - que distinção subsistirá ainda, no seu espírito entre o território da MetrópoIe e o daquela Província, entre a sua vida aqui e a que teve lá? É incontestável que uma osmose, uma fusão, um caldeamento, muito nosso, muito sui generis, se estão processando entre essas duas partes do território, nacional, impossível de observar em qualquer outro pais em relação às suas dependências ultramarinas

Todas essas manifestações a que me tenho referido constituem, com base na ,«humanização» do clima de Africa, o fenómeno a que eu chamei a «Destropicalização do continente africano», que muito contribuí - está já contribuindo, largamente - para a realização, conquanto gradual e lenta,

do que eu julgo que deve ser o futuro, ou destino, se assim quiserem da nossa Angola.

Deo juvante.

Observação final

Relendo este longo comentário do livro de Gilberto Freyre, na parte referente à Companhia de Diamantes, vejo que o não poupei. Que o não, leve a mal o ilustre sociólogo a quem incontestavelmente devemos, de justiça é reconhecê-lo, o ter-nos revelado, em estudos anteriores, aspectos das nossas origens, dos nossos contactos com novas terras e variados povos,.e dos efeitos por esses contactos produzidos, que não tinham sido já descobertos ou postos em devido relevo. Há muito ainda a investigar e a demonstrar no capitulo da nossa grandiosa acção ultramarina, e Freyre, está, como brasileiro simpatizante, em condições excepcionais para prosseguir, com êxito, esses estudos, que só ganharão, em exactidão e em profundidade, se evitarem a feição de reportagem apressada e superficial a que ele não soube fugir em «Aventura e Rotina». De Gilberto Freyre e da matéria aqui versada só poderemos aceitar «obras de fundo» à altura dele e dela, da envergadura de «Casa grande e sanzala>. Não lhe falta talento nem agudeza de observação. Quem escreveu, sobre a Ilha de Moçambique, as notáveis páginas, de 415 em diante, do livro em discussão, deve a si próprio e aos que o lêem o fazer ainda muito mais e muito melhor do que aquilo que há pouco nos deu. Assim seja, para proveito de todos.

NOTA - Este estudo crítico de uma parte do livro de Gilberto estava pronto a imprimir antes da partida para Angola de Sua Excelência o Senhor Presidente da República e nele nada foi alterado, mas entendi ser pouco próprio emitir opiniões sobre aquela Província e sobre a Companhia de Diamantes, durante a permanência nelas do primeiro magistrado da Nação.