Gramática

DIAMANG Pág. Superior Dicionário Tchokwe Gramática Numerais Cardinais Asneiras e Palavrões Provérbios Advinhas

 

 

Curioso Aspecto Linguistico no Concelho do Txitatu (Angola) -
edição de autor 1963 ; de E.P.Ferreira Martins (ex-missionário na Lunda)

Apresentação

Constitui o Concelho do Txitatu, com sede em Portugália, o ângulo nordeste
do Distrito da Lunda (Angola), dividindo-se os 40.562 Km2 da sua área total,
por dez Postos Administrativos cujos nomes a áreas (aproximadas), são como
se segue:

Lovwa - 8.210 Km2
Sede - 80 Km2
Lwatximu-4.017 Km2
Kambulu - 2.510 Km2
Kanzar - 3.298 Km`'
Luya - 2. 721 Km2
Katximu - 2.781 Km2
Sombo -6.$40 Km2
Kamissombo-3.521 Km 2
Kapaya - 7.034 Km2
Cinco destes Postos -- Lovwa, Sede, Lwatximu, Kambulu e Kanzar - fazem
fronteira terrestre a um outro - o Luya, fronteira fluvial, com o vizinho
Congo (ex belga).

Este Concelho, é, demogràficamente falando, berço de dois Povos distintos -
o Lunda (considerado genuinamente aborígene) e o Txokwe, seu invasor e
dominador (tão grande e forte sendo a sua influência sobre aquele, que
conseguiu impor-lhe não apenas a sua autoridade, como o uso da sua própria
Língua, em substituição total da do Povo dominado, ao ponto de ser notório o
facto de haver muitos indígenas de raça Lunda que só conhecem a Língua do
invasor - o Txokwe).

Não obstante, outros Povos partilham do mesmo solo acolhedor, idos d'além
fronteira, do vizinho Congo (ex-belga) cuja influência, não só de costumes
como linguística, ameaça pôr em perigo (se é que não pôz já) a «Cultura
Lunda-Kiôko», assim chamada por Mestre Redinha (em uma expressão
verdadeiramente feliz, que exprime, neste caso, melhor do que qualquer
outra, o conjunto sumático de valores em causa) (a).
a) Colecção Etuográfica do Museu de Angola, pág., 24 a 29


pag 9

Assim, enquanto que na área dos Postos orientais - Kanzar e Luya - se nota a
presença de tukongo (conhecidos por « Cacongos») e tumataba (ou «matabas»),
na dos Postos Sede, Lwatximu a Kambalu, registam-se fortes núcleos de
benalulua a baluba («Iuluas» e « balubas») sendo, no do Kambulu, muito de
considerar, também, a presença de gente Fuya.

Outros ainda, tais como os bakete (ou « quetas») a os mbakwaluntu, contam-se
em tão deminuta quantidade que nem merece a pena fazer-se-lhes qualquer
menção especial, sendo interessante notar, talvez, que os tumataba já
referidos, se encontram em franca absorção pelos tutxokwe (conhecidos entre
nós por « quiôcos»).

Quanto ao censo populacional < indígena> , se bem que não seja possível
conhecer-se rigorosa e exactamente o número de indivíduos que vive na sua
área pode dizer-se, que entre a população « fixa» (constituída pelos que
nela residem habitualmente) e a eventual (formada pelos milhares de
indivíduos que se deslocam de outros Concelhos a Circunscriçôes como «mão
d'obra» para a Empreza Mineira ali estabelecida), deve andar muito perto dos
100.000 habitantes (para cima o que é muito de considerar.

Dos Povos idos d'além fronteira, só nos interessa destacar, para o presente
trabalho, o Lulua e o Luba, por serem os mais inteligentes e « evoluídos»
(como é agora dito) detentores da Língua Txiluba a qual, a pouco e pouco vai
suplantando a da região -
 a Txokwe.

Situando-se este Concelho, como já vimos, em uma regiâo fronteiriça,
explica-se em parte, a presença nele, de indivíduos não nacionais vindos do
«outro lado» facto aliás comum em tais regiões, até mesmo entre nós
civilizados. Há, porém, a juntar a esta circunstância, o facto de estar
instalada nele há umas boas décadas uma Empreza Mineira de exploração de
diamantes, cuja laboração tem atraído (e absorvido totalmente) - como é
óbvio - todos os braços que se the têm oferecido, razão que só por si
justifica a presença desses «imigrantes» (absolutamente eventuais em tão
grande número, podendo mesmo dizer-se que tais indivíduos têm encontrado
nessa Empreza um acolhimento muito mais encorajador e convidativo do que os
próprios naturais da Província, mercê-talvez, do seu já citado avanço
intelecto-social.

CURIOSO ASPECTO LUNGUSTICO NO CONCELHO DO TXITATU (ANGOLA)» apresenta uma
pequena colecçâo de vocábulos recolhidos pelo Autor nas áreas dos Postos
Sede a do Kambulu (o do Lwatximu ainda não existia) únicas que conhece, por
nelas ter residido - de várias origens (predominando a Txiluba) introduzidos
e usados na conversação, cujo duplo aspecto que o seu uso apresenta, se
torna deveras interessante.

Deste modo, enquanto que os brancos ao usar esses vocábulos o fazem
convencidos de que estão a falar txokwe, os «quiôcos» usam-nos, ou por
adaptação (como no caso dos termos portugueses) ou pelo predomínio da Língua
estranha - a Txiluba à qual, inconsciente e lamentàvelmente se vão
submetendo.

Simultâneamente, observa-se outro particular não menos digno de registo, a
saber: enquanto que «lundas» e «quiôcos» fazem use da Língua invasora sem a
menor reserva, os benalulua a os mbaluba (seus detentores) não descem a
falar Txokwe, não empregando uma só vez sequer, no decorrer da conversação,
um só vocábulo desta Língua.

Para que deste despretensioso trabalho possam tirar proveito quantos o
consultem, divide-se ele em duas secções, tratando a 1ª de noções muito
sumárias de Fonética e a 2ª dos vocábulos em referência.

Sendo a Língua Txiluba estranha ao território angolano (era a Língua
Indígena oficial, na Província do Kasai, no vizinho Congo ex-belga, até à
independência deste, em Junho de 1960, pelo menos) e tão grande e forte a
relutância da esmagadora maioria de portugueses (metropolitanos e
euro-africanos) em aprender as línguas indígenas, é caso deveras estranho e
muito de lamentar até, o incremento francamente encorajador de que esta
Língua goza na área deste Concelho, em absoluto a insofisimável detrimento
da Língua da região - a Txokwe, a ponto de os indivíduos que vão d'além
fronteira não se sentirem necessitados de aprender não só esta Língua como
pròpriamente a nossa (com os brancos fazem-se entender em Francês e aos da
sua cor, vão impondo a sua própria Língua) tornando-se, deste modo,
simplesmente incontrolável a influência que esta população mais que
«flutuante» - duvidosa, exerce sobre os Povos pròpriamente nativos.

Se algum mérito poder ser atribuido ao presente trabalho, pertencerão os
 louros», por justiça, ao biólogo Luna de Carvalho (cujo nome se tornou
conhecido já, dentro a fora do País) a quem o Autor (seu particular Amigo)
reconhece esse direito visto ter sido por uma sugestão, dada no decorrer de
certo passeio, algures na galeria florestal do Lwatximu, na Lunda, que se
dispôz a prepará-lo, tendo-o publicado então, se bem que em parte apenas,
 FOLHA DE INFORMAÇÕES» (órgâo oficial da Casa do Pessoal da Empresa Mineira
já referida) sob o título BREVES NOTAS SOBRE VOCABULOS DE ORIGEM NÀO QUIÔCA,
USADOS NA REGIÃO.

Que, «CURIOSO ASPECTO LINGUISTICO NO CONCELHO DO TXI TATU (ANGOLA)» sirva,
não obstante a sua insignificância e desmerecimento serem grandes, de
auxílio aos entendidos em questãos de filologia africana, ajudando-os em
seus estudos mais profundos sobre este assunto, é o que sinceramente deseja
o Autor, o que, a tornar-se realidade, constituirá a sua melhor recompensa.
Lx.', Maio de 1960

O AUTOR


BILÓ deturpação generalizada entre os indígenas da região, do vocábulo da
Língua Francesa : BUREAU, com o qual designam secretária, escritório, casa
onde se escrevam e despachem documentos.


BOIA ou BAIA-CUCO
Deturpação do termo da Língua lnglesa: BOY--COOK que, à letra significa :
Rapaz- Cozinheiro (moço ou ajudante de cozinheiro, para nós portugueses) a
qual é largamente usada por brancos e pretos, para designar precisamente o
moço da cozinha e recados que é, em geral, um rapazote.

Não há em Chokwe vocábulo especial que exprima precisamente esta ideia.
Tanto este como outro vocábulo de origem inglesa que vamos encontrar são
remeniscências do recuado tempo em que na Empresa Mineira se fazia uso desta
Língua.


BUGANGA/S
Corruptela nossa (por má audição ?), do vocábulo da Língua Chiluba :
BWANGA -plural MANGA, que significa
Medicamentos, cozimentos, « mèzinhas» preparados pelo Feiticeiro ou pelo
Médico indígena, a qual é usada pelos europeus, ao referirem-se às várias
fórmulas farmacêuticas que receitam, ministram ou tomam.

Há em Chokwe, o vocábulo: YITUMBO

YITUMBO-substantivo da classe CH- YI (sempre usado na forma plural) que
significa
Medicamentos, remédios, desinfectantes. Isto de uma maneira geral, quer
sejam de origem europeia quer indígena e que, por extensão, abrange
detergentes, limpa-metais, etc.

Os tu-chokwe, para se referirem especificamente aos medicamentos ou
cozimentos do Feiticeiro (ou Nganga) ou do Médico indígena (ou Mbuki),têm o
vocábulo:

MULONGO-plural, MILONGO sendo a forma plural a main usada.

Interessante será notar, que entre o Povo Chokwe há, muitas crianças de nome
YITUMBO, o que significa que as mães se submeterem a determinada medicação
(indígena, é claro) para poderem conceber (da mesma maneira que muitas
outras se chamam MAKANO, por terem nascido em qualquer encruzilhada ou ponto
de confluência).

E o interessante deste facto será tanto maior, quanto maior fôr o grau de
conhecimento que se tenha deste Povo e seus costumes.



CHIFULU ; plural, BIFULU
Vocábulo da Língua Chiluba, que significa:
Barrete, bivaque, boné, chapéu, etc.
Há, em Chokwe, o vocábulo : TEPA.
TEPA : plural, MATEPA

Substantivo comum, de igual significado, pertencente à classe do prefixo li,
ma.

E' muito provável que em tempo mais recuado se dissesse, quando no singular
: LITEPA justamente com o que concorda a regra que coloca este vocábulo na
classe de prefixos acima indicada.
Exp.°
Tepa liami (meu chapéu), tepa lienyi (boné dele),
matepa ,jo (barretes deles), etc.